Star Wars foi jogado no lixo. Ainda há esperança para os filmes?
Publicado em 16/01/26 10:00
Essa sexta-feira (16) é o último dia de Kathleen Kennedy no cargo de CEO da Lucasfilm. Escolhida a dedo por George Lucas para lhe suceder, a lendária produtora hollywoodiana presidiu Star Wars durante alguns dos maiores altos e baixos da saga. Não é um exagero dizer, porém, que ela deixa o estúdio com a franquia em seu pior momento.
Por ser mulher, claro, Kennedy é criticada de maneira horrenda e muitas vezes injustas na internet. Seus sucessos, como o começo da trilogia sequel, Rogue One e séries como The Mandalorian e Andor, são frequentemente ignorados, por exemplo. O licenciamento, produtos, videogames e quadrinhos da marca seguem a todo vapor, e ela não foi ajudada pelas mudanças na Disney. O Bob Iger que a abençoou lá trás não é o mesmo que voltou à cadeira de presidente há alguns anos. Isso sem falar na gestão Bob Chapek.
Mas o fato é que como chefe da Lucasfilm, ela é a principal responsável por Star Wars, e não há como olhar o saldo de sua administração e não sair com uma simples conclusão: Star Wars foi jogado no lixo. Não é porque ela é uma mulher, não é porque ela não produziu boas coisas nesse universo, mas é porque está bem claro que, nem Kennedy, nem ninguém, jamais traçou um curso definitivo para Star Wars depois que Rey assumiu o sobrenome "Skywalker" em 2019. E então, ano após ano, esse problema persistiu.
Kathleen Kennedy
Kennedy pode não ser a única culpada por isso, mas ler sua entrevista de saída no Deadline é o tipo de coisa que vai deprimir qualquer fã, se não enfurecê-lo. Enquanto deixa claro que alguns dos projetos mais empolgantes que desenvolveu, como The Hunt for Ben Solo com Steven Soderbergh e Adam Driver, foram cortados por Iger, é impressionante o quão casualmente ela descreve os aparentemente infinitos roteiros congelados em Hoth.
Eis um resumo.
Sendo realista, só a trilogia de Simon Kinberg parece ter algum futuro, mas como tem sido o costume, Kennedy e a Lucasfilm parecem incapazes de dar alguma certeza sobre esses projetos. Seja para cancelá-los ou confirmá-los.
Da esquerda para direita: Kathleen Kennedy, James Mangold, Dave Filoni e Sharmeen Obaid-Chinoy anunciam três novos filmes de Star Wars em 2023. Nenhum deles sequer tem data de estreia.
Isso diz muito sobre os anos pós-Ascensão Skywalker de Star Wars nos cinemas. Goste ou não da maioria das séries, ao menos elas foram produzidas e saíram. Na telona, ninguém na Lucasfilm, nem mesmo a CEO que hoje sextará pela última vez no estúdio, consegue dar uma resposta firme sobre o que está acontecendo. Quantas vezes não vimos "o futuro de Star Wars" ser anunciado em algum evento, só para que essa visão se tornasse turva e nebulosa em poucos meses. Todo filme anunciado é eventualmente colocado numa espécie de limbo. Toda esperança se revela falsa.
Há três anos, escrevi sobre o futuro de Star Wars e usei a palavra mais associada à franquia para descrevê-lo: "esperança." Dizer que o texto envelheceu mal é um eufemismo. Esse é meu universo fictício favorito. Em tempos recentes, minha paixão por ele se resumiu a Andor, que para todos os efeitos é um milagre e algo que precisa ser valorizado, e à criatividade infinita de Star Wars Visions. Claro, as primeiras temporadas de The Mandalorian são maravilhosas, e eu estou no lado mais positivo de Ahsoka e sigo curioso para seu retorno.
Mas sejamos honestos, quem pode olhar para os próximos anos com confiança? Qual garantia temos? Dave Filoni, discípulo de George Lucas e responsável por séries como The Mandalorian, assumiu a presidência e a parte criativa da Lucasfilm, enquanto Lynwen Brennan, uma veterana do estúdio, comandará a área de negócios como co-presidente. Há alguns anos, o nome de Filoni nessa posição seria o equivalente a uma vitória contra o Império, mas seus tropeços mais recentes como a terceira temporada de Mandalorian abalaram até mesmo os mais devotos fãs de suas histórias.
Shawn Levy no set de Star Wars Starfighter.
O trabalho diante dessa dupla é volumoso. Os próximos projetos live-action de Star Wars são os seguintes: O Mandaloriano e Grogu, essencialmente um derivado da série que vai para o cinema, Star Wars: Starfighter, um filme dirigido por um dos responsáveis pelo final polêmico de Stranger Things, e a segunda temporada de Ahsoka, o projeto do coração de Filoni. Não é injusto dizer que nenhum desses três títulos é uma aposta segura, e se um deles sair pela culatra... bom, boa sorte. Mais do que entregar lançamentos, Filoni e Brennan precisam reconquistar a confiança dos fãs, do público geral, de Wall Street, de Iger, e dos artistas*.
*Olhe para a quantidade de cineastas talentosos que entraram pelas portas da Lucasfilm com projetos empolgantes e viram isso ser descartado ou congelado. Com todo respeito, poderíamos ter Steven Soderbergh e agora temos Shawn Levy. Até quando nomes interessantes vão se dispor a se envolver com Star Wars?
Tipicamente, descrevo Star Wars assim: "Star Wars nem sempre é bom, mas quando é, não há nada melhor." Ultimamente, as palavras "nem sempre é bom" têm se assumido o protagonismo dessa frase. Eu ainda acredito que quando Star Wars é bom, não tem coisa melhor no mundo de Hollywood e das franquias. Eu só não sei se esse "quando" ainda tem algum peso.
Eu quero acreditar que sim. Filoni entende dos temas de Star Wars como poucos. Ele fez Rebels, Clone Wars e alguns dos melhores momentos de Mandalorian. Ele, porém, ainda não se provou como diretor e muito menos fora da televisão. Mas, mais do que nunca na história da Lucasfilm, esperança é algo que precisará ser conquistado.
Fonte: Omelete // Guilherme Jacobs