FILMES NO CINEMA

Diretor de Ato Noturno: “Público quer assistir filmes brasileiros no cinema”

Publicado em 16/01/26 07:00

Se o filme brasileiro chega às salas de cinema, encontra o seu público. O difícil é chegar lá”. As palavras são de Filipe Matzembacher, que ao lado de Marcio Reolon dirige e escreve o thriller erótico Ato Noturno – uma das produções mais originais, vibrantes e envolventes que este repórter pode assistir na 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, no finzinho do ano passado.

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Em Ato Noturno, o ator de teatro Matias (Gabriel Farya) e o candidato a prefeito Rafael (Cirillo Luna) se envolvem em um caso de amor quente, mas secreto, enquanto suas carreiras começam a decolar. Filmado na Porto Alegre (RS) natal dos diretores, o longa empresta do suspense erótico dos anos 1970, 1980 e 1990 tanto quanto do filme noir de décadas anteriores de Hollywood – e, ao mesmo tempo, é completamente brasileiro.

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A seguir, confira a conversa completa do Omelete com os cineastas, onde eles comentam sobre as influências do longa, os temas de performance injetados na história, e o grande momento vivido pelo cinema brasileiro.

OMELETE: Oi pessoal, tudo bem? Queria dizer que assisti o filme de vocês na Mostra, e adorei. Estava ansioso para conversar com vocês dois.

MATZEMBACHER: Ah, que legal. Obrigado, Caio.

REOLON: Obrigado!

OMELETE: Foi muito legal estar naquela primeira sessão com vocês, ter aquela conversa introdutória, onde vocês falaram da inspiração nos thrillers eróticos dos anos 90, e tal. Eu queria saber: de onde vem a vontade de resgatar esse cinema? Vocês podem citar deixas específicas que tiraram de certos filmes?

MATZEMBACHER: Eu acho que a ideia de criar um diálogo com esse suspense erótico dos anos 70, 80 e 90 surgiu primeiro de um interesse de cinéfilo – é um cinema que a gente adora! Mas também, eu acho, vem da história que a gente estava começando a desenvolver. A gente queria muito criar uma história em que desejo e ambição entrassem em conflito, e esse cinema de forma geral explora isso de maneira muito interessante, né? É um cinema, de certa forma, herdeiro do cinema noir, que também é uma grande referência nossa. Então a gente tentou criar um diálogo com isso, mas fazendo algo de 2025, queer, bem brasileiro e porto-alegrense também. Isso está presente na nossa iluminação, definitivamente, na maneira com que a gente pensa os quadros – uma ideia também de se assumir cinema, um pouco, né? Brincar com essas ferramentas do cinema, os elementos de se fazer cinema.

REOLON: Até o nosso filme anterior, Tinta Bruta, a gente era mais ligado a uma estética naturalista, mais realista, quase como se a gente estivesse tentando criar uma ilusão de realidade para o espectador. E com esse filme não, a gente foi para outra direção, assumiu o performático, o estilizado – talvez estilizado seja uma palavra melhor ainda – que, como o Filipe falou, vai para tudo, desde o desenvolvimento do roteiro, das reviravoltas da trama, até a perform ance dos atores. É uma performance que entende ser performance, não está fingindo ser uma vida real. E a luz também, né? As luzes das ruas têm um quê ali de dialogar com a luz dos palcos, como se os postes de luz fossem refletores, os faróis do carro que banham eles e tal. Essas brincadeiras do cinema que são um pouco mais performáticas, para a gente, eram muito interessantes.

MATZEMBACHER: Daí trazendo uma cena específica que eu consigo lembrar: a gente queria muito ter o foco duplo, aquela lente específica que o Brian De Palma usava muito, e que é marcante desse gênero. Mas como a gente vai fazer isso? Não só usar de maneira gratuita, mas de uma forma que faça sentido na nossa história. Daí a gente pensou: claro, vai ser no momento que aparecer o Grindr pela primeira vez. [Risos] E foi esse momento, brincando com uma versão queer 2025 daquele efeito. O momento em que ele está checando se o boy é realmente a pessoa do Grindr ou não.

REOLON: E também como o zoom entra muito no vocabulário desse cinema, como uma perspectiva voyeurística também, né? O personagem que atrai a lente, que atrai o olhar do espectador, que atrai o olhar das outras pessoas e que, em alguns momentos, quer se esconder do olhar delas. Fomos incorporando todos esses elementos à trama.

Cena de Ato Noturno (Reprodução)

OMELETE: Você citou aí os filmes noir, né – legal entender que o cinema que vocês estavam resgatando também era um resgate, de certa forma. E quando eu ouço De Palma, eu lembro de Hitchcock, que obviamente era a grande referência dele. Então eu queria saber: quando vocês estavam no processo de fazer o Ato Noturno, vocês voltaram para assistir esses filmes antigos?

REOLON: Eu acho inclusive que a gente começou por esses filmes. Quando a gente começou a desenvolver o roteiro, a gente a princípio pensou que ele dialogaria mais com o cinema noir clássico dos anos 40 e 50, e depois um pouco mais com o neo noir, então a gente revisitou muito todos esses filmes. Até que a gente entendeu: não, mas espera aí, tem algo faltando aqui. E foi no suspense erótico que a gente encontrou esse algo, né? Eu acho que o suspense eróticoi trazer de uma forma muito interessante esse paralelo entre desejo e perigo. Essa é a pulsão que move a trama do suspense erótico, e era isso que a gente queria para o nosso filme. Mas claro, a gente não deixa de fazer acenos para Hitchcock – tem inclusive uma cena quando os personagens se conhecem e estão um de cada lado da rua numa longa avenida… aquele plano é uma homenagem direta nossa a um plano de Intriga Internacional. São elementos que seguiram no nosso filme, por mais que, claro, a gente tenha se calcado mais no suspense erótico, tudo trazido muito para a nossa realidade, para os dias de hoje, e para o Brasil.

OMELETE: Eu ia perguntar justamente disso, essa ideia de trazer para a realidade brasileira, para Porto Alegre. Como foi que vocês trouxeram isso para o filme? Vocês começaram já pensando em mostrar um lado B de Porto Alegre?

MATZEMBACHER: A gente estava discutindo isso agora a pouco, como a gente acha que a sociedade brasileira contemporânea dialoga muito com uma concepção de noir ou de suspense erótico. Porque a gente lida o tempo todo, bem ou mal – muito bem ou muito mal – com o desejo, com a violência, com a corrupção. Esses são elementos muito presentes, eu acho, nesse cinema. Aí já pareceu fazer uma relação muito interessante, que parecia cair muito bem. E a cidade de Porto Alegre é um elemento muito importante no filme. Ela já era muito importante no Tinta Bruta… a gente brinca que, no Tinta Bruta, Porto Alegre é a antagonista do filme, e no Ato Noturno a gente compreendeu ela mais como uma femme fatale. Ela é perigosa, mas seduz, te convida a vir, mas tu sabe que tu pode tomar uma ruim se for lidar com ela. Ela tem essa relação de dubiedade, um contraditório nela que é muito interessante… e a gente quis abraçar isso, né? Entender essa cidade que a gente nasceu, cresceu, e filmar ela agora através dessa perspectiva sedutora e perigosa.

REOLON: Sim, e isso vai também para quem eu acho que acaba assumindo o lado da vilania no filme – que é esse lado das grandes construtoras, incorporadoras, que são quem estão destruindo a cidade. Destruindo boa parte das cidades brasileiras. Eu acho que são pessoas que vão botando abaixo a memória histórica, a paisagem urbana, para construir coisas horrendas em prol do lucro.

MATZEMBACHER: Sim, a gente teve um cuidado para não vilanizar a política, e entender que boa parte das ações que a gente pode questionar da política existem por um interesse do capital empresarial. No Ato Noturno, os grandes vilões são invisíveis, estão ali por trás, aparecem em uma ou duas cenas, mas não estão presentes e visíveis o tempo todo no filme. Mas são eles que regem as cordas dos personagens, né?

OMELETE: Vocês também comentaram sobre esse tema do teatro. O protagonista é um ator, o Rafael é um político – a gente também tem o palco e o palanque, e eles dois meio que deixam essa performance vazar para outros lados da vida deles. Eu queria saber: como vocês trabalharam isso com os atores? E como incorporaram isso no universo noir do filme?

MATZEMBACHER: Para a gente, esse foi um elemento central. Quando a gente começou a desenvolver o projeto, essa foi a fagulha inicial: dois atores, um de teatro e um da política, que iam se encontrar e iam ser obrigados a performar uma vida específica nos seus palcos diurnos. Mas à noite eles iam procurar outros palcos para brilhar E foi muito interessante, esteticamente, poder pensar a cidade inteira como uma extensão desse palco. A iluminação às vezes remete a um holofote de teatro, as cortinas do teatro se estendem, estão presentes dentro dos apartamentos, a maneira que a gente filma os atores encenando, recriando muitas vezes um platô, a ideia de uma experiência teatral ali.

REOLON: E os atores, então, teriam que tera consciência de que eles estão sendo observados. Os personagens têm tanto essa consciência de "ah, talvez alguém esteja aqui me olhando", e às vezes quase uma consciência de que o espectador está do outro lado da tela. Existem vários momentos que a gente não entende se eles estão falando sobre alguém que está dentro do filme ou para nós, espectadores. Mas foi um processo muito legal com os atores, né? Essa construção de quanto eles iam ter que criar, essencialmente, dois personagens. Os dois lados de cara personagem, uma dualidade que gera o filme. E acho que o Gabriel [Faryas] e o Cirillo [Luna] fizeram um trabalho muito lindo, se jogaram muito para conseguir construir esses personagens que oferecem a dualidade o tempo todo.Tem sido uma recorrência para a gente, né, personagens que vivem quase vidas duplas, que têm sempre o dentro e o fora da tela, né? No Tinta Bruta isso era muito forte, nesse filme isso veio muito forte também. Vamos ver nos próximos.

Cena de Ato Noturno (Reprodução)

OMELETE: Pois é, eu quero perguntar dos próximos também, porque teve aí um hiato de sete anos entre o Tinta Bruta e o Ato Noturno. Primeiro, essa pausa foi uma questão criativa, se vocês estavam preparando o filme, ou uma questão de produção? E segundo, vocês já estão caminhando para o próximo?

REOLON: A pausa se deu por várias coisas, né? Uma que, logo depois de a gente lançar Tinta Bruta, teve a eleição do [Jair] Bolsonaro, que congelou os fundos de cultura por muitos anos e atrasou muito o desenvolvimento cultural e artístico do país. E também em paralelo a isso, somado a isso, a pandemia, que também dificultou que produções fossem financiadas e pudessem acontecer. Então esses elementos, com certeza pesaram. E enfim, a gente com certeza não pretende ficar tanto tempo agora num hiato, e a gente pretende poder filmar com muito mais frequência no futuro. Estamos num momento de muita explosão criativa, né? A gente está com muitas ideias, com muitos projetos sendo desenvolvidos ao mesmo tempo com diferentes pessoas. Então a gente espera poder estar a cada dois anos, mais ou menos, filmando algo novo. A gente ama filmar! Eu acho que é uma das nossas etapas preferidas de fazer cinema, estar no set de filmagens. É algo que a gente quer estar em constante exercício, e ficando muito tempo longe disso a gente fica triste.

OMELETE: Você falou que vocês estão num momento de grande explosão criativa, e que bom que isso está acontecendo concomitantemente ao melhor momento do cinema brasileiro em muito tempo! Vocês sentem o mercado mais aquecido, as pessoas mais interessadas? O que vocês acham importante acontecer, agora, para a gente não perder esse pique?

MATZEMBACHER: O interesse do público é um sinal muito bom, e a gente tem que seguir fomentando isso. Tem que ter política pública para ajudar as pessoas a irem ao cinema, tem que ter política pública para ajudar os projetos sigam sendo feitos, desenvolvidos de maneira séria, e que a gente siga tendo esse momento bom. Antes mesmo dessa explosão de agora, os festivais internacionais estavam de olho no nosso cinema, havia uma participação expressiva do Brasil. O público internacional começou a entender que éramos um país muito diverso, com muitas histórias sendo contadas. Então, eu acho que é muito importante aproveitar esse impulso e seguir investindo. É um soft power maravilhoso que nosso país pode utilizar, né, contar nossas histórias, contar nosso passado e pensar num futuro.

REOLON: Absolutamente. Os holofotes estão virados para o Brasil no momento, para o cinema brasileiro, e a gente tem que aproveitar. A gente tem que aproveitar esse momento e ir lá, se mostrar. E para isso, precisamos exatamente do que o Filipe. Eu acho que, colocando de maneiras muito práticas, é importante uma regulação dos serviços de streaming, de uma maneira que seja pensada para as produtoras independentes, e não para as grandes plataformas. E também o fortalecimento e ampliação dos mecanismos de financiamento público.

MATZEMBACHER: E sobre isso de conseguir fazer com que as pessoas vão ao cinema… A gente vê que as pessoas, na verdade, querem ir ao cinema, mas às vezes não têm a oportunidade. Às vezes, tem algum filme estrangeiro que domina completamente as salas, ou muitas cidades brasileiras não têm sala de cinema. É um absurdo. Se o cinema brasileiro chega até a sala, muito provavelmente ele vai encontrar seu público. Difícil é conseguir chegar lá. E isso só se consegue através de política pública, de planejamento.

OMELETE: Legal, gente. Muito obrigado, e parabéns pelo filme!

REOLON: Obrigado, Caio!

MATZEMBACHER: Muito obrigado!

*Ato Noturno já está em cartaz nos cinemas brasileiros, com distribuição da Vitrine Filmes.

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Fonte: Omelete // Caio Coletti

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