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Rosebush Pruning é sátira sobre privilégio, diz diretor brasileiro Karim Aïnouz

Publicado em 20/01/26 13:00

O diretor brasileiro Karim Aïnouz (A Vida InvisívelO Céu de Suely) terá um novo filme no Festival de Berlim 2026Rosebush Pruning foi anunciado como parte da seleção do evento, que acontece em fevereiro na Alemanha. Trata-se de mais um capítulo na boa fase de filmes e cineastas brasileiros. Vale lembrar que há um ano, O Último Azul levou o Urso de Prata neste mesmo festival.

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Em termos de seus projetos mais recentes, Aïnouz está passeando pelo mundo. Depois de A Vida Invisível, que venceu a mostra "Un Certain Regard" do Festival de Cannes em 2019, seu filme seguinte veio em 2023 com O Jogo da Rainha, produção internacional com Alicia Vikander Jude Law também selecionada para Cannes. Um ano depois, ele retornou ao festival francês com um longa rodado em sua terra natal no Ceará: Motel DestinoAgora, ele parte para o exterior com outra história repleta de nomes hollywoodianos.

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Falando ao Omelete no dia do anúncio da seleção, Aïnouz comentou sobre esse vai-e-vem, apresentou seu novo projeto, que é inspirado num clássico do realizador italiano Marco Bellocchio, celebrou o momento atual da arte no Brasil e falou sobre trabalhar com o elenco de estrelas deste novo filme: Elle FanningCallum TurnerTracy LettsPamela AndersonJamie Bell Lukas Cage são alguns deles.

Rosebush Pruning ainda não tem data para sair no Brasil. Os direitos de distribuição no país são da MUBI.

Da esq. para a dir.: Elle Fanning, Jamie Bell, Callum Turner, Lukas Gage (em pé), Riley Keough e Tracy Letts (sentados)

Felix Dickenson/MUBI

Guilherme Jacobs: Primeiro, Karim, meus parabéns pela inclusão do Rosebush Pruning no Festival de Berlim. Parabéns por mais um projeto reconhecido pelos festivais. Eu imagino que para muito do público brasileiro esse momento da inclusão do filme agora na seleção vai ser o momento de primeiro contato também com seu novo projeto. Eu queria que você o apresentasse. Como você descreveria esse filme e esse projeto?

Karim Aïnouz: Esse filme é uma sátira sobre a família tradicional, sobre o privilégio. Ele conta a história de uma família americana que vai morar na Espanha e vive absolutamente isolada numa mansão. É uma família muito rica que, em um dado momento, o filho mais velho decide ir embora de casa. Os outros irmãos se sentem completamente abandonados e fazem de tudo para esse filho poder ir embora e se libertar de um pai que é meio tirano. É um filme que tem uma história aparentemente muito simples, mas que tem um senso de humor muito especial. Para mim, foi uma coisa maravilhosa fazer esse filme, pois eu nunca tinha feito uma sátira. Então, é um filme que eu espero que desperte muitos risos na plateia. Ele é muito pautado pela ideia do absurdo, que eu acho que é uma coisa muito dos nossos tempos. Especificamente este ano, a minha vida tem sido marcada pelo absurdo. Quando você abre as páginas dos jornais, as notícias, a única maneira da gente descrever o tempo que estamos vivendo é o absurdo. Então ele conta essa história: quando você é muito privilegiado, o que é que começa a acontecer com você? Você começa a se afogar. Ele é inspirado ligeiramente num filme italiano da década de 60, que é o primeiro filme do Marco Bellocchio, De Punhos Cerrados, mas é só uma inspiração. A história dele é muito diferente e os temas são muito diferentes do filme do Bellocchio. É um filme que se passa basicamente dentro de uma casa muito rica e conta a história dessa família que começa a se desintegrar.

Guilherme Jacobs: Você está agora num padrão de um filme com elenco internacional, um filme no Brasil, outro filme internacional... Esse é o plano agora? Fazer esse revezamento?

Karim Aïnouz: O plano agora é não parar de fazer. Eu estou numa idade que não tenho mais muito tempo a perder e eu adoro fazer cinema. Então o primeiro plano, antes de qualquer coisa, é continuar fazendo cinema, que é a coisa que eu mais amo na minha vida. E sim, eu gosto muito de poder estar trabalhando nesses dois lugares, de estar trabalhando com o cinema brasileiro, que fale de temas que são muito familiares para a minha experiência, com os quais eu sou muito íntimo, mas também de fazer um cinema que seja internacional, onde eu tenha um elenco e um apelo diferente do cinema brasileiro. Para mim, cada filme é uma nova aventura, então esse ritmo está me interessando de fazer um filme internacional com um elenco como esse e fazer cinema no Brasil. Durante muito tempo eu fiquei sem fazer cinema no Brasil, principalmente por questões políticas na época do antigo governo, e agora eu fico muito feliz de poder fazer filmes nos dois lugares.

Guilherme Jacobs: Eu queria continuar nesse assunto porque eu lembro justamente, com o Motel Destino, de você estar muito feliz de voltar ao Brasil. Então eu suponho que teve alguma coisa no Rosebush Pruning que, quando você viu, você falou: "eu quero fazer filme no Brasil, mas esse eu preciso fazer". Eu queria entender o que te atraiu nesse projeto.

Karim Aïnouz: Na verdade, o Rosebush Pruning, pensando nessa coisa de fazer filme dentro e fora do Brasil, está dentro do que eu chamaria de uma trilogia sobre o patriarcado. Eu acho que essa trilogia se aponta um pouco no A Vida Invisível, mas que é um filme sobre personagens femininas; no Jogo da Rainha, que eu fiz na Inglaterra, o personagem principal é masculino, o Rei da Inglaterra, Henrique VIII, que é um tirano fascinante, mas um tirano; no Motel Destino, o personagem do Elias de novo é um desses personagens masculinos absolutamente tóxicos, perigosos e muito corrosivos. E esse filme me interessou muito pensando que, antes d’A Vida Invisível, eu estava fazendo filmes muito centrados em personagens femininas, e esse é o terceiro filme onde eu trato de um personagem masculino também, que é o personagem que o Tracy Letts faz no filme, o pai, que é muito parecido com o personagem do Elias no Motel Destino e o personagem do Henrique VIII. É isso que me atraiu muito: eu estou num momento onde me interessa muito fazer uma espécie de autópsia do patriarca, fazer uma espécie de anatomia desses personagens que, como a gente estava falando no começo dessa entrevista, você abre o jornal e eles estão aí. Isso me interessa muito como uma maneira de eu entender como é que a gente está no mundo hoje. Acho importante que a gente entenda quem são eles. E a segunda coisa foi o roteiro do filme, que foi feito por um roteirista espetacular, o Efthimis Filippou, um roteirista grego que tem um senso de humor e de crítica que é muito impressionante. Essa combinação me fez ficar obcecado em realizar e dirigir esse projeto da maneira como ele está hoje.

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Guilherme Jacobs: Você mencionou o Tracy Letts, eu gosto muito dele, é um dos melhores exemplos do que os gringos chamam de character actors, aquele cara que todo mundo sabe o rosto dele. Mas ele é só um desse elenco que é muito estrelado: temos Callum Turner, Riley Keough, Jamie Bell, Elle Fanning, Pamela Anderson... Muita gente com nomes e rostos reconhecidos internacionalmente. Eu queria entender como foi para você trabalhar com esse pessoal e o que você descobriu sobre eles.

Karim Aïnouz: Foi uma alegria. São todos grandes atores de diferentes texturas. O Tracy é muito diferente do Callum, que é muito diferente da Riley, e eu acho que isso foi um pouco o princípio na escolha desses atores, que fossem atores que criassem uma espécie de ensemble muito rico em textura. Foi um prazer, e eles são atores muito livres. É um filme bastante ousado, engraçado, mas muito irreverente. Eu acho que são atores que trouxeram uma vitalidade para a história, eles encarnaram esses personagens de um jeito muito específico. A gente ensaiou muito tempo para fazer o filme, então foi uma alegria poder estar com esses atores que, além de tudo, são surpreendentes. Apesar de atores absolutamente brilhantes e competentes, havia uma eletricidade entre eles, foi um pouco isso que me encantou. E o Tracy realmente é um ator... essa é a segunda entrevista que eu dou hoje e a segunda vez que me perguntam dele, fico muito feliz porque uma das grandes inspirações do filme também é o Killer Joe, que o William Friedkin dirigiu a partir da obra dele. Então acho que foi uma alegria poder tê-lo no set, aprendi muito com ele, um ator que é dramaturgo. E ao mesmo tempo ter uma atriz como a Pamela Anderson, que tem uma liberdade gigante de interpretação. Foi uma alegria constante fazer esse filme e foi o primeiro filme que eu fiz na vida que, às vezes, eu tinha que parar de filmar porque eu ficava rindo atrás do monitor assistindo, porque eles realmente fizeram coisas impressionantes e muito engraçadas.

Guilherme Jacobs: Acho que esse Festival de Berlim perpetua esse momento que a gente tem vivido não só de bons filmes, mas de bons filmes que estão tendo um reconhecimento lá fora também. Eu entendo que a produção em que você está agora envolvido não é brasileira, mas você é brasileiro e a gente está neste ano em Berlim em outras mostras como a Panorama e Generation com bastante nomes daqui. Eu queria muito ouvir de você, como alguém que estava lá fora com o Motel Destino em 2024, e agora vê isso continuar em 2026.

Karim Aïnouz: Olha, é uma pergunta que me deixa muito emocionado porque a gente esteve ausente durante muito tempo. Durante quatro anos foram anos muito difíceis para o Brasil e, consequentemente, para o cinema brasileiro. Então eu fico muito emocionado por várias razões. A maneira como a gente retomou esse espaço... se você olha bem o panorama do cinema mundial no último ano, a importância que teve um filme brilhante como Agente Secreto, a importância que tem O Último Azul, a importância que tem Manas, a importância que tem muitos outros filmes que não foram só celebrados pela crítica, mas que estão ocupando os cinemas no mundo inteiro. Eu acho que isso é fundamental. Isso é fruto de um trabalho de toda uma geração, estamos colhendo esses frutos agora. É muito emocionante, porque eu não achei que isso fosse acontecer. Teve uma hora ali que parecia que a gente estava num túnel que não tinha saída e hoje, na verdade, a gente está numa constelação. Isso é maravilhoso não só com relação aos filmes, mas com relação ao talento brasileiro, porque esses filmes são feitos por equipes super talentosas.

Especificamente no Festival de Berlim agora, eu fiquei muito feliz porque eu me lembro da gente estar no festival e não ter quase filme brasileiro porque a gente não podia filmar. Então agora a gente tem não só uma quantidade considerável, mas tem autoras e autores brasileiros sendo celebrados que são cineastas com um potencial e uma presença realmente impressionantes. Você vê o primeiro filme da Grace Passô, tem dois filmes cearenses no festival, tem o filme do André Novais... você tem toda uma outra geração que não é a minha geração, tem o filme do Felipe Bragança. O que eu acho muito bonito não só é o lugar que a gente está ocupando, mas o lugar que a gente vai ocupar. A seleção do Festival de Berlim este ano aponta, na verdade, para uma continuidade e para uma renovação do cinema brasileiro que me deixa muito feliz de poder estar testemunhando.

Guilherme Jacobs: Excelente. Bom, eu agradeço seu tempo, mais uma vez parabenizo pela seleção. Vou estar torcendo. 

Karim Aïnouz: Valeu, muito obrigado. Obrigado, Guilherme.

Fonte: Omelete // Guilherme Jacobs

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