Saló ou Os 120 Dias de Sodoma: a obra mais extrema de Pasolini
Em 1944, na República de Saló, no norte da Itália ocupada por nazistas e aliados fascistas, quatro homens com poder absoluto sequestram 16 jovens e os trancam em um palazzo isolado nos arredores de Marzabotto.
Dentro do casarão vigiado por soldados, eles impõem regras de propriedade sobre os corpos: cada jovem vira objeto de desejo, punição e morte, conduzido por quatro narradoras que contam histórias de libertinagem enquanto um piano pontua os atos.
O diretor Pier Paolo Pasolini adapta o livro do Marquês de Sade e transporta a narrativa para o contexto real da República Social Italiana, transformando o filme em uma alegoria política brutal sobre o poder.
Não é um filme de exploração gratuito. É um manifesto estético e ideológico, pensado para fazer o espectador sair da sala em estado de choque.
Estreia, contexto e legado
Saló chegou aos cinemas italianos em 1975, poucos meses após o assassinato de Pasolini, em novembro de 1975, crime que até hoje gera teorias e polêmicas.
O filme foi imediatamente confiscado, censurado e processado em diversos países, incluindo a Itália, por décadas. A cópia que estreou no Festival de Paris em 1976 virou caso de polícia.
Mesmo com a proibição, a obra circulou em cópias piratas, cineclubes e mostras de drama de arte, conquistando um lugar canônico na história do cinema.
Hoje é estudado em universidades, listado entre os maiores filmes já feitos em várias críticas retrospectivas e segue banido em várias plataformas de streaming por seu conteúdo explícito.
Foi o último trabalho de Pasolini, encerrando uma filmografia que inclui obras-primas como O Evangelho Segundo São Mateus, Teorema e a Medeia.
Vale o ingresso?
Ponto alto: a direção de Pasolini é cirúrgica. Ele filma a violência com frieza, geometria e repulsa controlada, sem erotismo. A construção visual transforma o palazzo em um microcosmo do Estado fascista, com regras, hierarquia e obediência mecânica.
O uso de música erudita, citações a Dante e ao Marquês de Sade cria uma camada intelectual que eleva o filme acima do choque gratuito. É cinema de horror político, não produto de gênero.
Ponto fraco: é um filme inegavelmente datado em algumas escolhas formais, e a sequência final, com tortura e massacres, é difícil de suportar mesmo para o espectador preparado.
Não é para qualquer público, nem para qualquer noite. É uma peça de museu, densa, seca, construída para doer.
Curiosidades de bastidores
- Pasolini foi assassitado em Ostia, perto de Roma, em 2 de novembro de 1975, poucas semanas antes da estreia comercial do filme, deixando mistério sem solução definitiva até hoje.
- O roteiro adapta o livro inacabado do Marquês de Sade, "Os 120 Dias de Sodoma", escrito em 1785 na Bastilha, e nunca publicado em vida pelo autor.
- O título original, Salò o le 120 giornate di Sodoma, mistura a cidade real com a referência literária, reforçando a leitura política da obra.
Perguntas frequentes
Saló ou Os 120 Dias de Sodoma tem cena pós-créditos?
Não. O filme termina de forma seca, sem cenas extras após os créditos finais, reforçando o caráter de manifesto e não de produto de entretenimento.
Onde assistir Saló ou Os 120 Dias de Sodoma online?
O filme está fora de catálogos mainstream de streaming no Brasil por conta de sua violência explícita. Circula em mostras, cineclubes, edições físicas de colecionador e plataformas dedicadas a cinema de arte.
Saló é baseado em fatos reais?
Não é uma reconstituição histórica direta, mas Pasolini usa a República de Saló, regime fantoche nazista de 1943-1945, como cenário alegórico para denunciar toda forma de poder absoluto e fascismo.
Pra quem é este filme:
- Leitores do Marquês de Sade, Bataille e estudos sobre fascismo e biopolítica.
- Cineclubistas que assistiram a O Expresso da Meia-Noite e buscam cinema de autor extremo.
- Pesquisadores de cinema italiano, obra de Pasolini e estética da violência no audiovisual.
Título original: Salò o le 120 giornate di Sodoma
País de origem: Itália
Data do lançamento: 31/12/1974
Distribuidora: Sem Distribuidor
Diretor: Pier Paolo Pasolini
Principais atores: