Sobre o que é o filme
Um dos projetos mais ousados do Pier Paolo Pasolini, O Evangelho Segundo São Mateus parte do texto bíblico de Mateus para recountar a vida de Jesus Cristo, do nascimento à ressurreição.
O recorte de Pasolini não é devocional. É político, social, fortemente colado à realidade do Sul da Itália nos anos 1960, com figurino de época deliberadamente incompleto e atores não profissionais ao lado de poucos profissionais.
O resultado é um filme que trata parábolas, milagres, intolerância e revolta com a mesma franqueza de quem filma um manifesto, não uma hagiografia.
Estreia e legado
Estreou na Itália em 1964, provocando discussões imediatas: católico praticante, Pasolini foi acusado tanto pela Igreja quanto pela crítica marxista de fazer um filme “de esquerda demais” ou “devocional demais”.
Em 1966, recebeu o Oscar de Melhor Trilha Sonora adaptada — prêmio histórico para uma obra religiosa e europeia sem estrelas de Holywood.
Hoje é leitura obrigatória em cursos de cinema, teologia da libertação e drama de autor. Influencia cineastas de Scorsese a Glauber Rocha e segue em circulação em mostras e edições restauradas.
Vale o ingresso?
Ponto alto: o rosto de Enrique Irazoqui no papel de Cristo é hipnótico. Pasolini filma o Messias como um líder popular cansado, cercado por camponeses reais, com trilha de Bach, Prokofiev, Odetta e Blind Willie Johnson dialogando em camadas inesperadas.
Ponto fraco: o ritmo é lento, contemplativo, e a montagem seca entre episódios pode cansar quem busca narrativa clássica de épico bíblico. É cinema de autor, não de entretenimento devocional.
Curiosidades dos bastidores
- Pasolini financiou parte das filmagens vendendo seus livros e abriu mão do cachê de diretor.
- A trilha reúne Bach, Mozart, Prokofiev e o bluesman Blind Willie Johnson — mistura típica do Pasolini erudito-popular.
- Foi indicado ao Oscar de Melhor Roteto Adaptado em 1967, algo raro para um filme religioso estrangeiro daquela época.
Perguntas frequentes
O Evangelho Segundo São Mateus é fiel à Bíblia?
Segue quase literalmente o texto de Mateus, com acréscimos pontuais de outros evangelhos. Não invoca cenas tradicionalmente associadas a Lucas ou João.
É um filme religioso ou crítico?
As duas coisas. Pasolini se dizia cristão não praticante e tratava Jesus como um revolucionário social, o que irritou religiosos e marxistas.
Onde se encaixa na filmografia de Pasolini?
É o ponto de partida de uma das fases mais produtivas do diretor, entre obras como Comícios de Amor e Teorema.
Pra quem é este filme:
- Fãs de biografia e histórico que preferem releituras críticas a adaptações conservadoras.
- Estudantes e admiradores do cinema de autor europeu dos anos 1960, especialmente da trilogia de Pasolini ao lado de Édipo Rei e Medeia.
- Leitores de teologia da libertação, ensaístas políticos e quem busca o diálogo entre fé, marxismo e cultura popular.
Título original: Il vangelo secondo Matteo
País de origem: Itália
Data do lançamento: 02/03/1964
Distribuidora: Sem Distribuidor
Diretor: Pier Paolo Pasolini
Principais atores: