Simonal: Honesta e polêmica, biografia do músico é o Rocketman brasileiro

Publicado em 08/08/19 05:00

A trajetória de Wilson Simonal é uma das mais conturbadas da música brasileira. O cantor fez muito sucesso nos anos 60 e 70, arrastando multidões aos seus shows, apresentando programas de TV e fundando a Simonal Produções, se tornando assim o seu próprio empresário. Tudo mudou, no entanto, quando foi acusado de colaborar com o Dops (Departamento de Ordem Política e Social), órgão do governo da ditadura militar responsável pela repressão e tortura de dissidentes políticos.

A partir daí, o cantor caiu no ostracismo, e virou personagem esquecido da música brasileira. Os altos e baixos do músico são expostos em Simonal, filme biográfico que chega hoje aos cinemas e que, ao abordar uma figura polêmica e não deixar nada de fora, lembra outro sucesso deste ano: Rocketman, longa sobre a vida e obra de Elton John.

Trailer de "Simonal"

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Assim como o filme britânico contou com a colaboração do próprio John, Simonal teve os filhos do biografado, Simoninha e Max de Castro, também músicos, como produtores e compositores. Em entrevista ao UOL, a dupla e o diretor do filme, Leonardo Domingues, contaram como a produção se dividiu entre um resgate musical do legado de Simonal e uma tentativa de esclarecer a fama de delator durante a ditadura.

"Eu tenho falado com pessoas que assistem ao filme agora, mais novas, e elas me falam: 'Cara, eu não conhecia essa história, eu não sabia nada disso'. Acho que mais do que um resgate, um esclarecimento do que aconteceu, é trazer para essas pessoas uma parte da nossa história. E eu acho que o filme é muito atual, quase um alerta: 'Olha o que aconteceu com o Simonal. Estamos em um momento parecido, alguém pode ser colocado de escanteio por um fake news'", comentou Domingues.

Simoninha completa: "A mensagem é de cada um. O entendimento é de cada um. A liberdade é de cada um para levar para casa, e levar para dentro de si, o que quiser. [Há quem tenha] A vontade de entender mais a história, ou de relembrar as canções, ou de entender todas as questões políticas que aconteceram. Esse é o grande barato do cinema. É você entrar [na sala] e aquilo te transformar de algum jeito".

Leandro Hassum e Fabricio Boliveira em cena de Simonal - Divulgação/Paprica Fotografia
Leandro Hassum e Fabricio Boliveira em cena de Simonal Imagem: Divulgação/Paprica Fotografia

Do Maracanãzinho ao ostracismo

Outra semelhança entre Simonal e Rocketman é que ambos fogem do formato tradicional da biografia ao recortar um período específico na vida de seus protagonistas. No filme brasileiro, acompanhamos o Wilson Simonal de Fabrício Boliveira dos primeiros shows do Dry Boys, sua banda antes da fama, até uma última tentativa de volta aos palcos, após todo o incidente com o Dops.

No meio do caminho, o filme escolhe usar imagens de arquivo para retratar alguns dos momentos mais icônicos da carreira de Simonal, como a apresentação no Maracanãzinho, em 1969, onde o cantor foi escalado como ato de abertura para Sérgio Mendes, mas acabou se tornando estrela principal da noite.

O verdadeiro Wilson Simonal - Reprodução
O verdadeiro Wilson Simonal Imagem: Reprodução

"Eu já trabalhei muito com documentário, gosto disso, de experimentar com essa mistura. Foi um processo delicado. A gente experimentou muito tempo na edição", relata Domingues. "Por exemplo, o Maracanãzinho. Como a gente ia filmar aquele lugar com 30 mil pessoas? Então a gente pensou: se já tem esse material, maravilhoso, com Simonal no auge, vamos tentar combinar isso".

Em outros momentos, Boliveira encarna o cantor brasileiro com garra e carisma. Apesar de dublar a voz de Simonal nas cenas de shows, o ator chegou a fazer aula de canto, para se tornar convincente no palco. "Não dava para eu tentar cantar do jeito que o Simonal cantava naquela época, eu tinha que convencer ali, para as pessoas que estavam sentadas, me assistindo", contou.

Boliveira ainda disse que não acha que Simonal tenha um herdeiro direto na música brasileira: "O legado dele ficou em bastante gente, mas até hoje não teve ninguém que ocupou esse lugar. Ele foi o primeiro músico a abrir o seu próprio escritório, ser seu próprio empresário. Foi o primeiro apresentador de TV negro, que hoje a gente não tem. Tem algum buraco, uma falta que esse cara fez. Ele nunca vai ser substituído".

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Fonte: UOL Cinemas // Caio Coletti