Comédia e fantasia se destacam em nova seleção de filmes no Ceará
Publicado em 31/03/26 19:00
No último fim de semana, o laboratório de roteiros Lab Cena 15 encerrou a sua décima-terceira edição com a entrega dos prêmios do ciclo 2025-2026. Os seis projetos de longa-metragem contemplados evidenciam uma certa maturidade do cinema feito fora do Eixo Rio-SP, pela sua variedade de gêneros e registros, e passeiam da comédia de escritório (Cafezinho, sobre um copeiro veterano que se vinga dos seus patrões) ao romance sobrenatural (Bar das Almas, sobre o reencontro na morte de dois homens apaixonados em vida).
“Tudo aqui está mais maduro, por diversas razões”, diz ao Omelete o cineasta Karim Aïnouz, um dos idealizadores do laboratório. “Quando eu comecei a fazer cinema aqui, nos anos 90, já havia gente que vinha de antes, como Rosemberg Cariry, depois vieram os cineastas formados em Cuba e, em seguida, muito por conta do digital, veio o fenômeno dos coletivos dos anos 2000 como o Alumbramento. Já existia ali um cinema muito virtuoso visualmente, ambicioso mesmo, mas que tinha uma relação de dificuldade com o público. Nos últimos anos esses novos filmes vêm sendo testados com o público e de uma maneira muito rápida, isso acontece inclusive com os filmes do Guto [Parente, que integrou o Alumbramento].”
Aïnouz menciona novos cursos especializados, como a graduação em cinema da Universidade Federal do Ceará a partir do final dos anos 2000, e a criação de projetos públicos como a Vila das Artes pela prefeitura de Fortaleza, como os exemplos de formação que começam a dar frutos. Um desses aparelhos culturais, a Escola Porto Iracema das Artes, gerido em parceria com o Instituto Dragão do Mar, realiza o Lab Cena 15; na edição deste ano o próprio Guto Parente integrou o júri, ao lado de Viviane Ferreira, Lilian Amarante, Mayara Santana, Humberto Carrão e Heitor Lorega. Conheça os premiados:
Prêmio Rede Paradiso
Vencedor: Bar das Almas (CE), de Naya Oliveira e Emilly Guilherme
Prêmio Paradiso Multiplica
Vencedor: Homem-Morto (CE), de Thiago Campos e Késsia Nascimento
Prêmio Pródigo
Vencedor: Bar das Almas (CE), de Naya Oliveira e Emilly Guilherme
Prêmio Vulneráveis Venceremos
Vencedor: Draga (BA), de Ana Clara Ribeiro e Lucas Calmon
Prêmio B_arco
Vencedor: Palavra por Palavra (CE), de Salomão Santana e Gabriel Amora
Prêmio FRAPA
Vencedor: Filhas do Mangue (PE), de Stella Carneiro e Rafhael Barbosa
Prêmio Cinema do Dragão
Vencedor: Cafezinho (CE), de Bruno Braga e Alexia Holanda
Prêmio Paradiso Internacionalização
Vencedor: Draga (BA), de Ana Clara Ribeiro e Lucas Calmon
Prêmio do Público
Vencedor: Bar das Almas (CE), de Naya Oliveira e Emilly Guilherme
Prêmio Residência IAMO (Viviane Ferreira)
Vencedor: Homem-Morto (CE), de Thiago Campos e Késsia Nascimento
Os prêmios variam de valores em dinheiro para o desenvolvimento dos roteiros a incentivos como cursos e mentorias; ao longo desses últimos 13 anos, foi do Lab Cena 15 que saíram alguns longas cearenses que circulam festivais, como os recentes Feito Pipa (de Allan Deberton, com Lázaro Ramos) e Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha (de Janaína Marques), ambos exibidos no último Festival de Berlim, em fevereiro.
“O Ceará vive uma permanência de políticas culturais há mais de 12 anos e isso gera mesmo uma comunidade audiovisual forte”, diz Bete Jaguaribe, diretora da Escola Porto Iracema das Artes e coordenadora do curso de cinema da Universidade de Fortaleza. Essa evolução se vê, segundo ela, pelo público que assiste à sessão gratuita de “pitching” (a apresentação de venda) dos roteiros do Lab Cena 15: “Todo ano vai aumentando. Sete horas da manhã já tinha gente na fila pra conseguir entrar [no Dragão do Mar]. Tem muita juventude fazendo cinema aqui e muito por conta dessa configuração de formação. E tem uma cultura cinematográfica estabelecida no Ceará que também inclui a exibição, como no cinema do Dragão, que só traz filmes mais autorais”.
Nesses 13 anos de Lab Cena 15, Aïnouz lembra que o processo envolvia a princípio muito convencimento e resiliência. “Eu ficava ligando para as pessoas, pedindo que elas mandassem projetos para o laboratório. Éramos vistos um pouco como uns caretas, porque [num ambiente de cinema autoral] ‘contar histórias’ era equalizado como algo conservador, americanizado. Foi difícil ter gente no começo. Acho que a maturidade tem a ver com fazer as pazes com o fato de que contar histórias não é uma coisa colonizada. Eu estava brincando ontem com alguém sobre cinema brasileiro, daquela coisa do ‘uma câmera na mão e uma ideia na cabeça’, que a câmera pode estar em vários lugares e ideia na cabeça a gente esquece, então [que tal] uma ideia no papel”, completa.
Fonte: Omelete // Marcelo Hessel