Atriz nipo-brasileira celebra Amarela na pré-lista do Oscar: "Significa muito"
Publicado em 03/01/26 07:00
A presença do curta-metragem brasileiro Amarela na pré-lista de indicados ao Oscar 2026 pode significar muito mais do que um possível prêmio para o Brasil. O simples fato de o projeto do diretor André Hayato Saito estar entre os selecionados tem uma representatividade muito grande para a comunidade nipo-brasileira, uma das maiores na América Latina e que pouco espaço tem em produções do audiovisual brasileiro.
A trama de Amarela se passa em 1998, no dia da final da Copa do Mundo, quando o Brasil enfrentou a França. Erika Oguihara (Melissa Uehara), uma adolescente nipo-brasileira que rejeita as tradições japonesas de sua família, está ansiosa para comemorar o título pelo seu país. Em meio a tensão que progride durante a partida, ela sofre com uma violência que parece invisível e adentra em um mar doloroso de sentimentos.
Com este tema, estar uma plataforma como a do Oscar, maior premiação da indústria cinematográfica, representando toda uma comunidade e uma cultura, deixaria um legado importante para Amarela. Um feito que seria mais importante ainda para quem sente as dificuldades de se trabalhar com audiovisual sendo de pele amarela.
"É impactante para nós sermos visto nas telas", afirma Carolina Liz, atriz e roteirista nipo-brasileira de 25 anos. Residente em Los Angeles, considerada a Meca do cinema hollywoodiano, desde 2022, ela vem buscando espaço em uma indústria que, historicamente, sempre negligenciou artistas que não fossem brancos.
Em entrevista ao Omelete, Carolina explicou a importância de ver Amarela receber os holofotes de estar na pré-lista do Oscar 2026 e a sensação de se sentir representada em uma produção brasileira. "Nossa comunidade em São Paulo é enorme. Significaria muito para a gente [uma indicação ao Oscar]. Eu conheci o André e a Melissa na exibição do curta em Los Angeles e a gente conversou bastante sobre representatividade. Eu e a Melissa não abraçávamos o tempo todo."
A lista oficial de indicados ao Oscar será revelada em 22 de janeiro. No momento, Amarela não está disponível nas plataformas digitais - assista ao trailer abaixo.
Falta de representatividade no Brasil
A ida de Carolina para Los Angeles não é justificada apenas pela oportunidade de trabalhar mais próxima a Hollywood. Segundo a atriz, que nasceu e foi criada em São Paulo, ela tinha pouquíssimas oportunidade de testes para atuar na cidade. E mesmo quando conseguia participar de algum, o papel ficava com uma atriz de pele branca.
"Eu nao acho que o Brasil nesse quesito é muito aberto para diferenças [de etnias], mesmo sendo um país bem misturado. Por incrivel que pareça, eu sinto que tenho mais oportunidades aqui [EUA] como atriz do que no Brasil. Hollywood é muito diverso e eles procuram belezas diferentes. No, Brasil por mais que pareça o contrário, às vezes eu me sinto mais vista ou percebida aqui do que no meu país."
À reportagem, Carolina destacou que, nos Estados Unidos, profissionais da indústria acham "um máximo" ela ter ascendência japonesa e italiana porque "é diferente e nunca ouviram falar". Uma surpresa que, na visão da atriz, não existiria se o Brasil desse mais representatividade à comunidade asiática na TV ou no cinema.
O fato de ter mais oportunidades em Los Angeles do que em São Paulo faz Carolina questionar se o cenário seria diferente mesmo se o audiovisual brasileiro recebesse mais investimento. "Eu me pergunto se eles abririam portas para outros tipos de beleza ou se eles continuariam presos na bolha do que acham que vende mais."
Carolina Liz (centro) em festivais realizado nos Estados Unidos
Para citar exemplos de como a comunidade nipo-brasileira é negligenciada em produções audiovisuais, a atriz lembrou de Sol Nascente, novela das seis da Globo exibida entre 2016 e 2017. Na ocasião, a maior emissora de TV do país escalou atores brancos para interpretar personagens nipo-brasileiros em papéis de destaque, como Giovanna Antonelli, que deu vida à protagonista, filha de um japonês vivido por Luís Melo, que também é branco.
"Se a nossa comunidade não tivesse falado nada, isso seria aceito e não se falaria mais sobre", pontuou Carolina. Diante deste cenário, ela faz questão de incluir em seus projetos autorais questões sobre pertencimento, assim como André Hayato Saito fez em Amarela.
Uma de suas inspirações é Jenny Han, autora de sucessos como Para Todos os Garotos que Já Amei e O Verão que Mudou a Minha Vida. "Eu soube que ela bateu o pé anos atrás para manter suas protagonistas de pele amarela. E isso fez ficar ainda mais especial."
Nos EUA, Carolina Liz já desenvolveu projetos como Auder, Crazy Bitch e o mais recente, Miss Porcelana. No primeiro, inclusive, ela foi premiada em dois festivais com a estatueta de Melhor Atriz.
Para a atriz, ela se vê mais representada em produções norte-americanas do que em brasileiras. Uma realidade que busca mudar através de seus projetos pessoais e com a torcida de que o cinema, tanto o nacional quanto o internacional, dê mais espaço para a comunidade asiática.
"Enquanto que Hollywood abre espaço pra contar diversas histórias diferentes, e mesmo não sendo exatamente sobre uma brasileira amarela italiana, chega o mais perto de eu me sentir representada. É isso que eu penso, ela [Jenny Han] nao escreveu uma história de uma menina nipo-brasileira, mas eu me vejo mais nas histórias dela do que em filme ou novela brasileira."
Fonte: Omelete // André Zuliani