20 anos de 'Minority Report': como filme virou marco da ficção científica?

Publicado em 05/08/22 05:00

Lançado em 2002, "Minority Report: A Nova Lei" é resultado de um projeto que Steven Spielberg começou a desenvolver ainda em 1999. A ideia do diretor, que acabou se concretizando, era fazer um filme baseado no conto homônimo, lançado em 1956 por Philip K. Dick. Responsável por outras grandes obras de ficção científica, como "Blade Runner" e "Vingador do Futuro", o escritor costumava abordar em seus trabalhos um futuro distópico, e a história escolhida por Spielberg era uma das que trazia essa característica marcante.

No conto original, assim como no filme, somos apresentados a uma agência que desenvolveu um sistema capaz de prever delitos. Tecnologia aliada à mente dos precogs (pessoas capazes de sonhar com o futuro), possibilitou que as taxas de criminalidade caíssem vertiginosamente.

Contudo, embora a premissa seja, de fato, inovadora, ao se deparar com alguns detalhes dos escritos originais de "Minority Report", Spielberg se viu diante de um desafio: uma narrativa feita em meados do século 20 explorava questões que, em plena virada de milênio, acabaram tornando-se obsoletas

A partir daí, o cineasta e um grande time reuniram-se em segredo, para que suas ideias ajudassem a transformar o universo do longa em algo ainda mais avançado e contemporâneo. Para isso, o cientista da computação e um dos precursores da realidade virtual, Jaron Lanier; o futurista Peter Schwartz; o autor Douglas Coupland e até mesmo Tom Cruise, protagonista do filme, uniram forças para ajustar previsões sobre o futuro que tinham a intenção de aludir - e, com um grupo de especialistas em inovação, o filme acabou se transformando numa espécie de profecia.

Embora "Minority Report" explore uma história que, nos dias de hoje, ainda demoraria mais de três décadas para acontecer, muito do que o filme mostra transformou-se em realidade poucos anos depois de seu lançamento.

Comecemos por exemplos mais práticos e concretos: como visto na reprodução acima, o agente John Anderton (Cruise) acessa dados e imagens em uma tela translúcida, reorganizando informações utilizando suas mãos; carros sem condutores também estão presentes no filme, além de impressoras 3D, dispositivos de reconhecimento biométrico e câmeras de vigilância espalhadas por toda a cidade - hoje, tudo isso ultrapassou a ficção e está presente no mundo real.

Mas, além das suposições assertivas sobre o que estava por vir em termos tecnológicos, "Minority Report: A Nova Lei" também propõe reflexões incrivelmente alinhadas com dilemas atuais.

As ficções científicas aclamadas por críticos e fãs costumam fazer o mesmo: "Duna", série literária de Frank Herbert, discute política e questões ambientais latentes; as ameaças climáticas e a humanização também são debatidas em "Blade Runner"; e, no caso de Minority Report, o determinismo e os efeitos nefastos do controle de nossas (futuras) ações por terceiros são alguns dos principais temas levantados.

Senso de justiça e monitoramento excessivo se fundem numa crítica assustadoramente atual. Algoritmos presentes em diversos gadgets utilizados pela maioria de nós não se distanciam da distopia que o longa apresenta, instigando a provocação de até que ponto dominamos, ou somos dominados pela tecnologia.

O roteiro do filme também faz dele um clássico. O mais interessante, muito mais que os aparatos da agência Precrime, é o maior questionamento filosófico explícito pela trama: afinal, temos livre-arbítrio?

Ultrapassando a necessidade de explicar exaustivamente como os pré-crimes são previstos, Scott Frank e Jon Cohen optaram por um script que mergulha nas consequências dramáticas da existência dessa organização. Inicialmente responsável por correr atrás dos supostos criminosos, John Anderton se vê como novo alvo da Precrime. E, com arco do protagonista de Cruise encerrado com louvor, o filme é capaz de responder sua principal questão de maneira assertiva, dinâmica e emocionante.

Nesta terça-feira (2), o longa completa 20 anos de estreia nos cinemas. Arrecadando mais de US$350 milhões em bilheteria, a produção reviveu a memória de Philip K. Dick nas telonas - o filme Impostor (2001), última adaptação cinematográfica de um conto do autor à época, foi um fracasso nos Estados Unidos. Porém, "Minority Report: A Nova Lei" fez jus ao legado do escritor, entrando para a história como uma das melhores e mais estimulantes ficções científicas que a sétima arte já viu.

Fonte: UOL Cinemas // Mariana Assumpção