Veja o trailer do filme O Cristo cego
Um milagre que começa no deserto
Michael é um morador de uma vila árida no norte do Chile que, segundo ele próprio, presenciou uma revelação divina entre as pedras do deserto. Ninguém leva a sério.
Os vizinhos tratam a história como delírio e, com o tempo, relegam Michael ao papel de bobo da comunidade. Até que um amigo de infância sofre um acidente em uma vila distante, e ele decide partir a pé, descalço, pelo deserto carregando a certeza absurda de que vai curá-lo com um milagre.
É assim que O Cristo Cego, do diretor Christopher Murray, transforma uma comunidade sem fé em personagem central de um drama árido, devagar e nada piedoso.
De Veneza para as salas brasileiras
O longa estreou na competição Orizzonti do Festival de Veneza em 2016, onde disputou atenção com outras obras de cinema de festival vindas da América Latina. Foi a segunda incursão de Murray nesse circuito depois de Neruda (2015), também ambientado no Chile, o que consolidou o diretor como um dos nomes mais lúcidos do novo cinema chileno.
No Brasil, chegou aos cinemas em 16 de março de 2017, em circuito bastante reduzido, reforçando o caráter de evento do lançamento. A passagem por Veneza rendeu crítica internacional forte, mas pouca penetração comercial — o que combina com o espírito do filme.
Hoje, quase uma década depois, é lembrado como um daqueles títulos que circulam entre cinéfilos como segredo bem guardado. Quem procura cinema chileno contemporâneo esbarra nele cedo ou tarde.
Vale o ingresso?
Ponto alto: a direção de Christopher Murray é cirúrgica na maneira como filma o deserto de Antofagasta. A paisagem vira personagem, a câmera quase nunca se move sem motivo, e os atores não profissionais, liderados por Michael Silva, entregam uma verdade que elenco formado raramente alcança.
O filme não julga Michael: apenas mostra como uma sociedade o consome. Há humor involuntário nos vizinhos, mas o tom cresce em melancolia conforme a peregrinação avança.
Ponto fraco: o ritmo é lento de verdade. Quem chega esperando narrativa convencional vai se frustrar nos primeiros vinte minutos. A história de fato se move, mas em câmera lenta, e exige paciência quase monástica.
Também não espere respostas fáceis sobre fé, milagre ou loucura. O longa prefere deixar as perguntas abertas, o que divide o público.
Curiosidades
- Murray rodou o longa na região de Antofagasta, no deserto do Atacama, usando em boa parte moradores locais como elenco, o que explica a textura crua das cenas.
- A produção é uma coprodução entre Chile e França, circulou por mais de trinta festivais e chegou a representar o Chile no Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2017.
- Apesar do título bíblico, o roteiro não tem ligação direta com textos religiosos: a referência é à figura de um Cristo terreno, quase cego para si mesmo, que caminha sem enxergar o próprio destino.
Perguntas frequentes
O Cristo Cego é baseado em fatos reais?
Não. É uma ficção escrita por Christopher Murray, embora se inspire no catolicismo popular e nas peregrinações que ainda ocorrem no norte do Chile.
O filme tem cena pós-créditos?
Não. O longa termina antes dos créditos finais, sem teaser nem easter egg depois. Planeje a saída do cinema com calma.
Qual a classificação indicativa e a duração?
Classificação 14 anos, com 85 minutos de duração. Curto, denso e sem gordura narrativa aparente.
Onde foi exibido pela primeira vez?
Estreou mundial no Festival de Veneza 2016, na seção Orizzonti, dedicada a cinematografias mais arriscadas.
Pra quem é este filme:
- Apaixonados por cinema de festival: quem acompanha mostras como Veneza, Locarno e San Sebastián vai reconhecer a linguagem de Murray e o tipo de olhar que ele propõe.
- Fãs de cinema latino-americano contemporâneo: títulos como Neruda e Propaganda dividem o mesmo universo de crítica social com humor seco e cenário chileno.
- Quem busca reflexão sobre fé e sociedade: o longa funciona como estudo de caso sobre como comunidades lidam com carência simbólica, sem pregação.
Título original: El Cristo Ciego
País de origem: Chile / França
Data do lançamento: 16/03/2017
Distribuidora: Festival
Diretor: Christopher Murray
Principais atores: