Veja o trailer do filme Adaptação.
O que é Adaptação
Charlie Kaufman é um roteirista em colapso. Ele foi contratado para adaptar The Orchid Thief, um livro de não-ficção da jornalista Susan Orlean sobre colecionadores de orquídeas raras na Flórida, e simplesmente não consegue transformar aquilo em roteiro de cinema.
O problema é que o livro não tem história clássica. Então Charlie escreve sobre si mesmo tentando escrever, atravessa crise criativa, frustração amorosa e divide o apartamento com Donald, seu irmão gêmeo que aproveita cada brecha para se aproximar de Hollywood.
Dirigido por Spike Jonze, o filme transforma o bloquinho de anotações do roteirista em uma drama metalinguístico, ácido e bastante inventivo, embalado como comédia existencial.
Estreia e legado
Lançado nos cinemas em dezembro de 2002 nos Estados Unidos e chegando ao Brasil em 2003, Adaptação dividiu público e crítica no lançamento, mas envelheceu como cult absoluto entre roteiristas e cinéfilos.
O grande momento da temporada de premiações foi o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante para Chris Cooper, que interpreta John Laroche, o colecionador obcecado por orquídeas. O roteiro do próprio Charlie Kaufman foi indicado a Melhor Roteiro Adaptado, assim como Meryl Streep a Melhor Atriz. A cerimônia ainda trouxe a piada infame do infomercial musical ao vivo com Meryl Streep e Chris Cooper no palco, citada até hoje como um dos momentos mais奇怪 do Oscar.
Quase duas décadas depois, segue sendo referência obrigatória em listas de meta-cinema e cursos de roteiro, ao lado de filmes como Ave, César!.
Vale o ingresso?
Ponto alto: a atuação de Nicolas Cage é duvidosamente genial. Ele carrega os gêmeos Charlie e Donald como duas pessoas completamente distintas, uma contida e a outra um desastre carismático, e o filme ganha peso sempre que eles dividem a tela.
O roteiro de Kaufman também é o grande trunfo: ao mostrar a escrita como um processo falho, sangrando em tempo real, ele cria um filme que fala sobre bloqueio criativo com a inteligência de quem viveu o problema na pele.
Ponto fraco: o terço final muda de tom de forma brusca, quase como se o próprio roteirista tivesse perdido o controle da narrativa. Quem prefere filmes com estrutura firme pode achar que o filme se sabota.
Há também uma ou duas piadas de humor que não atravessam bem o tempo e soam datadas em 2024, embora não comprometam o conjunto.
Curiosidades
- O roteiro foi escrito por Charlie Kaufman sobre a própria tentativa de adaptar o livro, e Donald Kaufman, o irmão fictício, chegou a ser indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Adaptado como piada. A Academia levou a sério.
- Spike Jonze e Charlie Kaufman se reencontraram logo em 2003 para Onde os Fracos Não Têm Vez no roteiro, e depois em Her (2013), consolidando uma das parcerias mais criativas do cinema americano dos anos 2000.
- A participação de Brian Cox como o guru de roteiristas Robert McKee é uma referência ao próprio Seminário McKee, frequentado por roteiristas de Hollywood, e o monólogo dele sobre estrutura narrativa virou material de estudo.
Perguntas frequentes
Adaptação é baseado em fatos reais?
Sim e não. Charlie Kaufman recebeu de verdade a missão de adaptar The Orchid Thief e travou na tarefa, mas os eventos do filme, incluindo o irmão gêmeo Donald, são ficcionais.
Qual a classificação etária do filme?
No Brasil, a classificação indicativa é 16 anos, principalmente por conteúdo sexual, drogas e linguagem.
Adaptação tem cena pós-créditos?
Não. O filme termina de forma definitiva, sem cenas extras após os créditos finais.
Pra quem é este filme:
- Fãs de meta-cinema: quem curte filmes sobre o próprio ato de fazer cinema, como 8½ de Fellini ou Ave, César! dos Irmãos Coen, vai se sentir em casa.
- Leitores de roteiro e escritores: a representação quase clínica do bloqueio criativo ressoa forte com quem já tentou terminar um texto longo olhando para a tela em branco.
- Admiradores do Nicolas Cage dos anos 2000: este é um dos papéis mais subestimados da carreira dele, ao lado de outras performances memoráveis do início do século.