A Dama do Lotação
Sobre o que é o filme
Solange e Carlos se amam desde jovens e se casam depois de um namoro casto. Na noite de núpcias, ela recusa o sexo e ele a estupra em um acesso de raiva. O trauma inicial vira o motor de tudo o que vem depois.
Solange afirma amar o marido, mas não consegue mais ser tocada por ele. Para testar a si mesma, começa a seduzir desconhecidos em lotações, motoristas que nunca mais vai ver. Sem remorso aparente, amplia a rotina para o melhor amigo de Carlos e até o próprio sogro.
O marido descobre as traições e parte para o confronto armado. Enquanto isso, Solange procura um psiquiatra, incapaz de sentir culpa pelo que faz. A direção de Neville D'Almeida aposta no choque e no deboche, num filme que quer incomodar mais do que explicar.
Estreia e legado
Lançado em 17 de abril de 1978 no Brasil, A Dama do Lotação é um dos filmes mais polêmicos da chamada Boca do Lixo paulista. Chegou aos cinemas no fim do ciclo da pornochanchada, mas com uma proposta bem mais ácida do que o gênero permitia.
Não circulou no circuito de premiações internacionais da forma como outros brasileiros da época, como Dona Flor e Seus Dois Maridos, conseguiram. O impacto veio mesmo pelo boca a boca, pela censura e pelo mito em torno de Sônia Braga.
Hoje é lembrado como um documento da repressão da ditadura militar sobre a cultura. A Censura Federal mutilou cenas e a versão exibida por décadas não é a integral. Em retrospecto, é citado em documentários como Assim Era a Pornochanchada e em estudos sobre a representação da sexualidade feminina no cinema nacional.
Vale o ingresso?
Ponto alto: A presença de Sônia Braga. Mesmo no início da carreira, ela domina cada cena com uma intensidade física que segura o filme inteiro. É o tipo de performance que justifica a busca pela obra.
Ponto alto: O contexto histórico. Ver um longa brasileiro de 1978 lidando com estupro marital e liberdade sexual feminina, mesmo que de forma provocativa, continua sendo raro no cinema nacional.
Ponto fraco: A direção aposta no escândalo e no humor escrachado, o que envelheceu mal. Algumas cenas parecem mais interessadas em chocar do que em construir uma crítica consistente sobre a sexualidade de Solange.
Ponto fraco: O ritmo é irregular e o roteiro, baseado no romance de Nelson Rodrigues, escorrega para o caricato nos personagens secundários.
Curiosidades dos bastidores
- O roteiro é baseado no livro homônimo de Nelson Rodrigues, publicado em 1966, que já havia inspirado uma versão anterior de 1967 com Leila Diniz, censurada e raramente exibida.
- A Censura Federal obrigou a remoção de cerca de 30 minutos do filme, incluindo cenas de nudez e diálogos. A versão íntegra só foi restaurada anos depois, em edições especiais em DVD.
- Sônia Braga tinha apenas 27 anos nas filmagens, o que torna a maturidade da performance ainda mais notável, considerando que era uma de suas primeiras protagonistas no cinema.
Perguntas frequentes
A Dama do Lotação vale a pena assistir em 2024? Depende do seu interesse. Para o público casual, é um filme datado e chocante sem grande construção de personagens. Para quem se interessa por drama histórico e pelo cinema brasileiro dos anos 1970, é um documento importante, mesmo que irregular.
O filme é considerado pornochanchada? É frequentemente associado ao gênero, mas diverge. Neville D'Almeida usa a estrutura da pornochanchada para fazer uma crítica ácida ao moralismo da ditadura, o que o coloca mais perto do cinema de autor do que do exploitation puro.
Qual a classificação etária do longa? O conteúdo sexual explícito e a temática de violência marital tornam o filme restrito para maiores de 18 anos em qualquer reexibição atual.
Pra quem é este filme:
- Estudiosos do cinema brasileiro dos anos 1970: especialmente quem pesquisa a Boca do Lixo, a pornochanchada e a transição para o cinema de autor pós-ditadura.
- Fãs de Sônia Braga: é uma das primeiras grandes atuações da atriz, antes do estrelato em Aquarius e no circuito internacional.
- Leitores de Nelson Rodrigues e psicologia do comportamento: quem se interessa por personagens moralmente ambíguos e pela representação de trauma encontra aqui material de sobra.