Valor Sentimental venceu o Oscar porque, no fundo, nem é um filme internacional
Publicado em 16/03/26 01:00
A vitória de Valor Sentimental como Melhor Filme Internacional no Oscar 2026 não é exatamente uma surpresa quando se olha com um pouco mais de atenção para o tipo de filme que a Academia costuma abraçar. Há sempre uma narrativa de descoberta, de reconhecimento global, de olhar para o cinema do mundo. Mas, muitas vezes, o que realmente vence é a conversa que já existe diretamente com o próprio universo de Hollywood.
E Valor Sentimental faz isso o tempo todo.
[Opinião] Oscar escancara que o k-pop não é mais meme — é hegemoniaEmbora tenha sido feito na Noruega, ele carrega várias características que o aproximam muito do cinema que Hollywood entende como seu. Uma parte significativa do filme é falada em inglês. O elenco traz rostos extremamente reconhecíveis para o público americano, como Stellan Skarsgård e Elle Fanning, nomes que transitam com naturalidade entre o cinema europeu e o circuito de grandes produções internacionais. Isso reduz a distância cultural que muitas vezes separa filmes estrangeiros da votação da Academia.
Há também o fator Joachim Trier. O diretor norueguês não é um desconhecido para o Oscar. Seu trabalho já circula há anos no radar da Academia e de festivais europeus importantes, o que cria uma familiaridade que pesa bastante nessas disputas – como pesou para o próprio O Agente Secreto, já que Kleber Mendonça Filho se encaixa na mesma categoria. Em um prêmio que valoriza tradição e reconhecimento de trajetória, ter um nome conhecido por trás da câmera faz diferença.
Mas talvez o elemento mais importante esteja no próprio tema da trama.
Valor Sentimental é, essencialmente, um filme sobre cinema. E Hollywood tem uma relação quase inevitável com esse tipo de história. Filmes que falam sobre o poder da arte, sobre a memória do cinema ou sobre o próprio ato de filmar sempre encontram um eco muito forte dentro da Academia. Em 2026, isso ganha ainda mais peso porque a temporada inteira foi atravessada por discussões sobre o futuro das salas de cinema e sobre o papel do cinema tradicional em um mercado cada vez mais dominado pelo streaming.
Nesse contexto, a vitória do filme também conversa com um momento específico da indústria.
Quando olhamos para a disputa além de Melhor Filme Internacional, vemos que Uma Batalha Após a Outra e Pecadores (os dois maiores indicados e vencedores da noite) eram produções ligadas à Warner, um estúdio que simboliza muito bem as turbulências que Hollywood vem atravessando nos últimos anos. Entre negociações, possíveis vendas e mudanças estruturais, a empresa se tornou um retrato de um modelo de cinema que tenta se adaptar a uma nova realidade.
No Oscar e além, O Agente Secreto aponta para um cinema nacional consistenteEsse cenário ajuda a entender o pano de fundo simbólico da premiação. Hollywood vive um momento de transformação profunda. Não significa que o cinema tradicional esteja morrendo, mas é inegável que ele atravessa um período de redefinição. O próprio Leonardo DiCaprio já falou publicamente sobre a necessidade de proteger a experiência das salas de cinema.
E, no fim das contas, Valor Sentimental representa exatamente essa ideia de preservação. É um filme que fala sobre cinema, que reverencia o próprio meio e que, ao mesmo tempo, chega até Hollywood com uma linguagem que ela reconhece: atores familiares, diálogos em inglês e um diretor que já faz parte do circuito prestigiado da indústria.
Hollywood, no fundo, sempre teve uma tendência muito clara: proteger aquilo que considera seu. E talvez seja justamente por isso que essa vitória faça tanto sentido.
Fonte: Omelete // Thiago Romariz