The Moment não é expansão do brat, diz diretor: “É sobre a cultura como um todo”
Publicado em 21/02/26 06:00
Aidan Zamiri confessa que usou o processo de edição de The Moment como uma oportunidade para relaxar após “um ano e meio de trabalho ininterrupto” com Charli XCX para a era brat. O disco lançado em 2024 gerou, quase dois anos depois, um “documentário falso” sobre os bastidores da turnê inspirada por ele, e Zamiri – que dirigiu os clipes de “360” e “Guess” para a popstar – foi o escolhido por Charli para comandar o projeto.
[Crítica] Charli XCX coloca fogo no “brat summer” com o audacioso The Moment“Como artista que quer sempre estar trabalhando, às vezes você acaba ficando viciado na ideia de não parar, deixar as coisas continuarem rolando”, comenta ele ao Omelete. “A primeira vez que senti que pisei no freio, e me restabeleci, foi quando entramos na edição deste filme, o que trouxe seu próprio impacto. [...] Foi útil, sabe? Talvez catártico também, mas acima de tudo foi uma forma útil de processar o que eu estava vivenciando em tempo real”.
Apesar da conexão temporal e temática com o álbum, no entanto, Zamiri delimita que The Moment “não é uma expansão do brat”, e sim um filme que analisa a nossa relação com a cultura pop como um todo. Confira a seguir a conversa completa do cineasta com o Omelete.
OMELETE: Você e Charli trabalharam em videoclipes juntos, e agora em um longa-metragem. Como você descreveria essa relação criativa? Vocês já têm uma sintonia, uma compreensão de como trabalham juntos?
ZAMIRI: Sim, tive muita sorte de Charli e eu termos construído essa relação por um tempo. E falando em sintonia, com certeza. Ao longo da produção desses videoclipes que fizemos durante a era brat e, agora, fazendo este filme, acho que identificamos rapidamente que somos pessoas muito parecidas. Temos instintos muito semelhantes, inseguranças muito parecidas, e coisas muito semelhantes pelas quais nos sentimos atraídos, não apenas de uma forma estética, mas também na maneira como processamos o mundo ao nosso redor. Espero que possamos fazer coisas juntos para sempre, realmente, porque nós realmente nos entendemos.
E essa sintonia é algo que valorizo muito em qualquer tipo de trabalho que faço, especialmente quando trabalho com outras pessoas. Como trabalho em uma série de formatos e meios diferentes, muitas vezes você é colocado em uma posição, especialmente como fotógrafo, em que entra em um trabalho e precisa explicar o que está buscando fazer, convencer a outra pessoa, dentro do espaço de um dia. Felizmente, tenho a sorte de trabalhar com muita gente super aberta e disposta a isso, mas uma vez que você constrói essa relação e vocês já filmaram juntos algumas vezes, você consegue ir cada vez mais longe e construir uma linguagem juntos, e acho que isso é o mais importante. É por isso que muitas das colaborações que tenho com artistas ou criativos são de longa duração. Tento trabalhar com as mesmas pessoas repetidamente, porque é quando você se diverte mais.
OMELETE: The Moment também fala muito sobre colaboração artística e suas armadilhas, especialmente ao lidar com a indústria. Como diretor, como você garante que uma colaboração seja positiva? E o quão difícil é negociar com as pressões comerciais envolvidas?
ZAMIRI: Eu gosto de pensar que minha tática ou abordagem como diretor é extremamente colaborativa; tem que ser. Não acho que seja possível fazer um filme sem colaboração, há muita gente envolvida. Descobri que ser um bom diretor é se comunicar adequadamente, ter as pessoas na mesma página e saber que cada um comunica ou entende as coisas de formas diferentes. Ser flexível e maleável o suficiente para trazer todo mundo à bordo da maneira que for. Também sinto uma certa responsabilidade, especialmente quando faço algo que está no mundo de outra pessoa. Posso ter sido o roteirista e diretor deste filme, mas estamos apresentando Charli interpretando uma versão de si mesma, falando sobre o trabalho da vida dela e quem ela é como pessoa. Essa responsabilidade não passa despercebida por mim; é sobre ter respeito, admiração e querer construir algo com alguém em vez de tentar encaixar alguém em outra coisa.
Trata-se de se envolver totalmente com alguém, e no filme alertamos justamente sobre o oposto: quando uma entidade tenta entrar e se envolver apenas com uma parte de algo, ignorando ou tentando esterilizar o resto. É aí que algo se torna distorcido e o sentido se perde. Vemos isso acontecer no mundo em que vivemos. Não é apenas sobre como alguém interage com uma estrela pop, mas como as pessoas interagem com subculturas ou outras culturas. Envolver-se com algo apenas pela metade é a receita para criar algo vazio.
OMELETE: The Moment é um mockumentary, um subgênero antigo e histórico em Hollywood [vide produções como Isto é Spinal Tap ou The Office]. Como você decidiu por esse format,o e que tipo de referências cinematográficas você trouxe para a mesa?
ZAMIRI: Acho que tanto Charli quanto eu estávamos muito animados, quando iniciamos o projeto, com a ideia de pegar algo que se apresentasse como um caminho mais convencional ou esperado para alguém na posição da Charli e virar de cabeça para baixo. As pessoas esperam que ela capitalize em um grande momento da sua carreira, que ela tente tirar o máximo proveito disso. O que pareceu mais interessante para nós, portanto, foi fazer algo assim – que buscasse algo muito verdadeiro, que atingisse o cerne do que Charli e eu sentimos, e Bertie [Brandes], minha corroteirista. Mas também fizemos um filme que não está a serviço do álbum de forma alguma. Lançamos quase dois anos após o ‘brat summer”, e ele não é sobre expandir o álbum, é sobre refletir e analisar não apenas essa obra, mas onde estamos como cultura, como o mundo parece e como é ser uma pessoa navegando no mundo em que vivemos.
Tenho sorte que o público, de certa forma, está preparado para esse tipo de formato, essa brincadeira, essa ruptura da forma. Obviamente, filmes como Isto é Spinal Tap, Spice World ou Josie e as Gatinhas, sátiras incríveis da indústria musical, foram super influentes não apenas para este filme, mas em nossa cultura como um todo. É legal refletir sobre onde estamos agora, porque o mundo mudou muito desde que esses filmes foram lançados. Também me interesso muito por diretores e artistas que brincam com a verdade. Por exemplo, Eu Ainda Estou Aqui, com Joaquin Phoenix, é um filme muito interessante, que nunca diz exatamente o que é real ou não. Acho isso muito legal, e muitos artistas que considero interessantes brincam com essa mistura entre ficção e realidade.
OMELETE: No final, The Moment também se torna muito sobre desapegar do fenômeno brat, ou pelo menos tentar ir além dele artística e pessoalmente. Como alguém que fez parte de tudo isso, também foi catártico para você? Como foi filmar aquelas cenas finais?
ZAMIRI: Aquele momento pareceu estranhamente conectado a tudo o que eu estava sentindo. Me sinto muito grato por ter estado envolvido no brat, da minha própria forma. Charli inventou tudo aquilo, quase uma nova maneira de interagir com o mundo. E para ela, é claro, esse momento de transição de saída é algo enorme. Mas, igualmente para mim, brat foi um momento em que o trabalho que eu estava fazendo ganhou escala, foi visto por mais pessoas, então senti que eu e ela estávamos passando por sentimentos muito semelhantes – esse terror de ser mal interpretado, que é algo com o qual você tem que lidar quando faz um trabalho consumido em grande escala. E foi engraçado processar isso em tempo real.
Algo que sinto ser onipresente em todo o tom do filme é esse impulso constante para frente. É como eu me sinto, ou me senti, enquanto estávamos filmando. Como artista que quer sempre estar trabalhando, às vezes você acaba ficando viciado na ideia de não parar, deixar as coisas continuarem rolando. A primeira vez que senti que pisei no freio, e me restabeleci, foi quando entramos na edição deste filme, o que trouxe seu próprio impacto. Eu podia sentir o zumbido nos meus ouvidos de ter seguido sem parar por cerca de um ano e meio. Foi útil, sabe? Talvez catártico também, mas acima de tudo foi uma forma útil de processar o que eu estava vivenciando em tempo real… e provavelmente foi o mesmo para a Charli.
OMELETE: Perfeito. Parece que podemos esperar um documentário falso sobre a produção deste filme. [Risos]
ZAMIRI: Um dia! Não sei se estou pronto, mas sim. A turnê de imprensa, com certeza. [Risos]
* The Moment já está em cartaz nos cinemas brasileiros.
Fonte: Omelete // Caio Coletti