Fernando Meirelles sobre Pico da Neblina: "As drogas de Brasília não afetam as drogas da série"

Publicado em 30/07/19 05:00

A ficção de Pico da Neblina, série nacional da HBO que estreia no próximo domingo (4), está cada vez mais distante da realidade nacional. Produzida pelo cineasta Fernando Meirelles e dirigida pelo filho dele, Quico Meirelles, a trama conta a história de dois amigos da periferia de São Paulo em um futuro distópico, quando a maconha é legalizada no Brasil.

Quando a série estava sendo produzida, há quatro anos, a realidade era outra. Quico tinha receio de que a série perdesse força quando fosse lançada, porque imaginava que em 2019 a maconha já teria sido legalizada. Naquela época, o debate sobre o tema no Congresso estava bastante avançado. "Do início deste ano para cá, demos uma guinada no sentido contrário e, agora, a legalização está cada vez mais distante e improvável", diz.

Se no Congresso o debate está parado, as políticas públicas para o cinema e TV parecem seguir na mesma direção. Recentemente, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que pretende fechar a Ancine (Agência Nacional do Cinema) e que não vai admitir mais que "dinheiro público seja destinado a filmes como o da Bruna Surfistinha".

Fernando Meirelles rebate. "As drogas de Brasília não afetam as drogas da série", disse o diretor, em referência aos comentários do presidente. Vale lembrar que Pico da Neblina foi toda feita com recursos próprios da HBO, sem dinheiro público.

Cena da série Pico da Neblina, da HBO, com os atores Luis Navarro e Henrique Santana - Divulgação/HBO
Cena da série Pico da Neblina, da HBO, com os atores Luis Navarro e Henrique Santana Imagem: Divulgação/HBO

Legalização da maconha

No enredo, Biriba (Luis Navarro), um jovem traficante paulistano, decide vender maconha legalizada após a mudança da lei. Do outro lado, seu melhor amigo, Salim (Henrique Santana), prefere continuar vendendo drogas à moda antiga, na ilegalidade.

Quico Meirelles acha importante levantar o debate. "Pessoalmente, sou muito favorável à legalização das drogas, especialmente da maconha. Eu acho que o público vai se envolver com esses personagens, independentemente da crença em achar que maconha é coisa do demônio ou que a legalização das drogas é errado", afirmou.

Mostrar as drogas, a violência e a pobreza nos cinemas não é nenhuma novidade para Fernando Meirelles, que dirigiu o premiado Cidade de Deus. E essa experiência passou de pai para filho.

"Cidade de Deus fala de um tema muito urgente e importante de ser debatido", disse Quico. "Aprendi com o meu pai a ter a sensibilidade social de contar histórias que toquem as pessoas. É o caso de Pico da Neblina, que não é nem pró nem contra a legalização, mas fala sobre o tema pela boca dos personagens. Quanto mais debates tivermos, mais iremos iluminar as pessoas com informações", contou Quico.

A série brasileira será exibida em 70 países, entre eles, todos da América Latina e Caribe, os Estados Unidos e parte da Europa e da África, inclusive em locais onde a maconha já é legalizada.

Fernando Meirelles coproduziu a série Pico da Neblina, da HBO - Divulgação/HBO
Fernando Meirelles coproduziu a série Pico da Neblina, da HBO Imagem: Divulgação/HBO

Humor involuntário

Embora a série seja um drama, Quico Meirelles destaca os alívios cômicos que a atração tem, especialmente nas cenas que envolvem o personagem Vini (Daniel Furlan, de Choque de Cultura), um investidor completamente desastrado que deseja entrar no ramo da maconha.

O objetivo, segundo o diretor, é falar de um tema sério, mas com leveza.

"Acho que todo usuário de maconha (e também quem não é) sabe que o consumo da erva naturalmente tem uma veia cômica. Acho que as pessoas esperam esse humor também da série", disse Quico. "O Daniel Furlan dá uma leveza e contrasta ao drama dos outros atores".

Trailer de Pico da Neblina, da HBO

UOL Entretenimento

Fonte: UOL Cinemas // Felipe Branco Cruz