FILMES NO CINEMA

Ótima adaptação de Quarto do Pânico encontra força em sua crítica social

Publicado em 14/02/26 07:00

Fazer um remake de algo que fez sucesso em sua época é sempre um grande desafio. O cinema mundial tem exemplos de sobra, seja na bilionária indústria norte-americana ou em outros mercados, de releituras que deram certo e outras que nem tanto. Talvez o maior obstáculo seja traduzir a história original para uma mídia, um novo tempo ou até mesmo um povo público. É por isso que ver a versão nacional de Quarto do Pânico ter êxito mesmo quando comparado ao original chega a dar orgulho do cinema brasileiro.

Na versão de David Fincher, lançada em 2002 e estrelada pela dupla Jodie Foster e Kristen Stewart, o foco era a decadência de uma classe média alta dos Estados Unidos que já não mais se via segura dentro de seu mundinho particular. Era o pós 11 de setembro, e o cinema norte-americano abraçou histórias de violência (dentro e fora do país) para reforçar essa insegurança em busca de, eventualmente, encontrar novamente a esperança dentro da força de seus personagens. Em sua releitura, Gabriela traz os eventos de Quarto do Pânico para a realidade brasileira, com todas as suas nuances sociais que vão da misoginia ao preconceito.

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O trunfo da nova versão começa na escolha de colocar a narrativa de Quarto do Pânico sob um olhar totalmente feminino. Na trama, Mari (Ísis Valverde) perde o marido em um assalto à mão armada e se vê obrigada a se mudar com a filha pré-adolescente (Marianna Santos) para uma casa (supostamente) mais segura dentro do coração da classe média paulistana. A tal casa conta com um quarto do pânico criado especialmente para situações de extremo risco, como uma invasão ou algo do tipo. Mas para o azar das duas, o perigo as encontra logo na primeira noite em seu novo lar.

Ao encaixar Quarto do Pânico dentro da realidade brasileira, Gabriela traz um trio de invasores que reflete as várias faces da sociedade tupiniquim. Marco Pigossi vive um playboy que, apesar do baixo intelecto, alimenta um prazer sádico que cresce conforme o perigo de sua “missão” aumenta; André Ramiro é um homem negro que se vê obrigado a cometer um crime por problemas financeiros; e Caco Ciocler dá vida a um psicopata que, dos três, é o mais confortável em praticar maldades. 

Mais do que representar a óbvia ameaça ao bem-estar das protagonistas, o trio de homens serve para colocar o dedo na ferida de uma dinâmica social que exala misoginia. Para mãe e filha, eles são a imagem do terror de encontrar três homens desconhecidos dentro de casa. Para eles, as duas não passam de pequenos obstáculos a serem superados. “Ah, são só duas mulheres”, diz um deles. Uma fala do roteiro adaptado por Fábio Mendes que expõe o machista que jamais verá o outro sexo como uma ameaça de fato.

Dentro deste jogo de gato e rato dentro de uma mansão que, aos poucos, vai tornando o ambiente cada vez mais claustrofóbico, Quarto do Pânico também se transforma em uma história de superação. Ainda de luto pela da morte do marido, Mari se vê obrigada a lutar para sobreviver e manter a filha em segurança. É por esta situação extrema que a protagonista renasce, não só por si mesma, pela relação com a própria filha, que vinha definhando desde a tragédia que abalou a família. Este renascimento é sutil, mas evidenciado pelo famigerado quarto do pânico, que serve quase que como um útero — metaforicamente ou não — para essa nova versão de Mari.

Por se tratar de um retrato social do Brasil, o novo Quarto do Pânico ainda esfrega na cara do espectador algumas de nossas mazelas. É quase impossível não identificar o vilão de Pigossi como um arrogante jovem da aristocracia que poderia muito bem sair chutando vira-latas pelas ruas, ou o personagem de Ramiro como o homem negro escanteado pela sociedade e que se vê obrigado aceitar o crime como última opção. Mas nem só de sutilezas a diretora se aproveita para criar o seu mosaico nacional, e colocar luz em problemas sociais tão constantes no nosso país é quase uma obrigação da arte como um todo. E isso o nosso Quarto do Pânico faz muito bem.

Fonte: Omelete // André Zuliani

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