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O Testamento de Ann Lee é uma história real? Confira o que é verdade

Publicado em 14/03/26 08:00

Filmes baseados em figuras históricas quase sempre caminham na linha tênue entre fidelidade e licença criativa, seja por um lado lúdico ou para preencher lacunas sem registros. O Testamento de Ann Lee não é diferente. Dirigido por Mona Fastvold e estrelado por Amanda Seyfried, o longa revisita a trajetória de Ann Lee, fundadora do movimento religioso conhecido como Shakers e vista como um retorno de Jesus em forma feminina.

Crítica |  O Testamento de Ann Lee: Amanda Seyfried brilha como líder religiosa 

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Ambientado no século XVIII, o filme acompanha a ascensão espiritual de Lee, a formação de uma comunidade religiosa que defendia ideias extremamente radicais para a época e seu estabelecimento nos EUA.

Mas até que ponto o que aparece na tela realmente aconteceu?

Quem foi Ann Lee na vida real

A história do filme é baseada em fatos reais. Ann Lee nasceu em 1736 na cidade de Manchester, na Inglaterra, em uma família da classe trabalhadora.

Durante a vida adulta, ela se tornou líder espiritual dos Shakers, ou Sociedade Unida de Crentes na Segunda Aparição de Cristo, grupo cristão que acreditava em uma forma de vida comunitária baseada em igualdade de gênero, celibato e separação do mundo exterior.

Seus seguidores passaram a chamá-la de “Mother Ann” (ou Mãe Ann, em tradução literal) e acreditavam que ela representava uma manifestação feminina de Cristo. Em 1774, Lee liderou um grupo de fiéis rumo à América do Norte, onde o movimento começou a crescer e estabelecer comunidades religiosas. O grupo sofreu diversas perseguições, tanto na Inglaterra, onde eram presos, quanto na América, onde suas práticas eram vistas como pagãs.

Ann Lee morreu em 1784, mas o grupo continuou se expandindo nas décadas seguintes e chegou a reunir milhares de membros nos Estados Unidos ao longo do século XIX.

Reprodução/20th Century

O que é real sobre os Shakers em O Testamento de Ann Lee

Um dos pontos mais fiéis do longa é a representação das crenças do grupo. Os Shakers realmente defendiam igualdade entre homens e mulheres dentro da comunidade — algo extremamente incomum no século XVIII. Além disso, acreditavam que a pureza espiritual exigia celibato, o que significava que seus membros não podiam se casar ou ter filhos.

Outro elemento retratado corretamente é a forma como aconteciam os cultos religiosos. As reuniões incluíam canto, dança e movimentos corporais intensos. Essa prática acabou dando origem ao apelido “Shakers”, derivado do verbo inglês to shake, que significa “tremer”.

O Testamento de Ann Lee mostra perseguição real 

O longa também acerta ao mostrar a hostilidade enfrentada pelo grupo. As ideias defendidas pelos Shakers despertaram forte desconfiança em outras comunidades religiosas e autoridades locais. Em diferentes momentos, seus membros foram perseguidos, presos ou atacados por causa de suas crenças.

Esse contexto de tensão ajuda a explicar por que a liderança de Ann Lee ganhou tanta importância dentro do movimento, criando um símbolo de resistência e mártir que poderia ser comparado aos paralelos bíblicos.

Reprodução/20th Century

A tragédia pessoal de Ann Lee é real

Outro elemento importante da história também tem base histórica: os traumas de Ann Lee e sua relação com o corpo e a maternidade. Antes de assumir papel central na comunidade religiosa, Ann Lee teve quatro filhos durante seu casamento. Todos morreram ainda na infância.

Historiadores frequentemente apontam que essas perdas tiveram grande impacto em sua visão espiritual e influenciaram a defesa do celibato dentro da comunidade Shaker.

O que não é real em O Testamento de Ann Lee

Apesar da base histórica sólida, várias partes do longa envolvem liberdade criativa e O Testamento de Ann Lee abraça justamente essa ambiguidade. Em vez de tentar funcionar como um relato histórico estritamente factual, o filme opta por explorar os mitos e interpretações que surgiram em torno da líder dos Shakers.

As sequências musicais, por exemplo, são muito mais elaboradas do que os rituais reais dos Shakers. Embora música e dança fossem parte das celebrações religiosas, os cultos eram mais simples e repetitivos do que a versão estilizada apresentada no cinema, que ganha contornos teatrais.

Outro ponto que envolve interpretação é a própria personalidade de Ann Lee. Isso porque existem poucos registros diretos sobre sua vida. Lee era analfabeta e não deixou textos escritos. Os relatos sobre sua história, em grande parte, foram feitos seguidores ou críticos.

 

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Fonte: Omelete // Alexandre Almeida

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