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Marty Supreme e o Sonho Americano de Josh Safdie

Publicado em 21/01/26 10:00

Longe de ser um filme autobiográfico, Marty Supreme ainda é algo recheado pelos traços do diretor Josh Safdie. Estrelado por Timothée Chalamet, o longa – que elegemos como um dos melhores de 2025 e é forte candidato ao Oscar 2026 – tem sido muito comparado a seu próprio astro. Não é um acidente; Chalamet divulgou Marty, inclusive na CCXP25, com muito fervor, competitividade e ambição. O resultado veio. Olhar para a personalidade e carreira de Safdie, porém, é encontrar a outra metade da equação dessa obra-prima.

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Fissurado em esportes, estudioso da Nova Hollywood e claramente interessado nas essências, boas e ruins, da sociedade norte-americana moderna, Safdie colocou muito de sua experiência em Marty Supreme. Há a chegada da paternidade. Há a experiência errática do judeu em Nova York. Mas há, acima de tudo, um corre. O corre para conquistar o respeito de uma indústria, para garantir a oportunidade de mostrar seus talentos e para, talvez com uma pitada necessária mas perigosa de orgulho, obter o reconhecimento merecido. 

Marty Supreme | Crítica do filme com Timothée Chalamet
A24

Trata-se de um impulso inevitável, ao menos quando o enxergamos através do viés da carreira de Safdie, que subiu de nível no mundo do cinema com Bom Comportamento (2017) com Robert Pattinson e ainda mais com Joias Brutas (2019) com Adam Sandler. Ambos dirigidos com seu irmão Benny, os filmes transbordam com semelhanças – personagens questionáveis, mas determinados, dispostos a canalizar a ansiedade que permeia todo o filme na força de vontade imparável de buscar realizar suas versões do tal Sonho Americano. São temas aos quais ele retorna em Marty Supreme, mas dessa vez por um viés mais pessoal. Como disse o próprio Safide em entrevista disponibilizada exclusivamente ao Omelete, sua realização desse propósito veio em Joias Brutas. Marty Supreme é um filme que surge da pergunta: “O que vem depois?” 

Passei 10 anos correndo atrás [de Joias Brutas], e era um sonho em que ninguém acreditava,” disse Safdie, inevitavelmente ecoando o Marty Mauser de Chalamet em Supreme. “A cada etapa do caminho, eu era quase ridicularizado quando dizia que queria fazer esse filme, esse filme grande. As pessoas diziam: ‘ah, vamos te dar 5% do que você está pedindo porque você não merece isso, você deveria ficar nessa pequena cena independente estilo faça você mesmo’. Eu tinha aquela dedicação àquele sonho, aquele propósito. Eu precisava levar isso até o fim.” 

Cada momento em que o filme não era realizado era a satisfação daqueles que estavam me humilhando,” ele diz, com um ar de rancor compreensível. “A cada passo do caminho, eu ia lá e fazia outro filme apenas para tentar provar que aquele outro era importante. O sacrifício dessa jornada foi uma vida. Eu não tive vida fora de fazer esse filme.”

Eventualmente, Joias Brutas foi feito. Sucesso de crítica. Aclamado pelo público. Prêmios. E então, veio a pior dúvida imaginável: e agora?

Atsushi Nishijima/A24

Depois que terminei Joias Brutas, fiz uma entrevista e alguém perguntou: ‘o que vem a seguir?’. Comecei a chorar porque nunca pensei que isso fosse acabar. Nunca pensei no que viria depois. Tive esse sentimento de vazio de ‘qual é o sentido disso?’. Ok, eu consegui. O que é um sonho? Por que sonhamos? Era o meu propósito, agora acabou. O sonho acabou? John Lennon disse a famosa frase: ‘A vida é o que acontece enquanto você está ocupado fazendo outros planos’. A vida é o que acontece enquanto você está sonhando,” relembrou o diretor. “Quando fiz 41 anos em abril, percebi que vivi mais do que ele e isso me assustou.”

Suas reflexões sobre sonho, combinadas com um livro sobre a cena do tênis de mesa em Nova York na primeira metade do século 20, o levaram a pensar sobre o Sonho Americano. Sobre aquela promessa intoxicante, aparentemente impossível, de conquistar algo pela força do seu próprio braço. Uma promessa de recompensa para o esforço. Basta tentar um pouco mais. Há alguma verdade nisso?

Acho que o filme é sobre o individualismo ferrenho. Acho que a América e o capitalismo, em particular, foram os caminhos para expressar isso ou para abrigar o individualista ferrenho,” ele explica. “Acho que o Sonho Americano tem uma promessa incrível. Mas pode ser um pouco enganoso para as pessoas porque ele é inalcançável. Mas como existem pessoas que conseguem viver o Sonho Americano, ele é a cenoura na ponta da vara; você está constantemente correndo em direção a ela.”

Para Marty Mauser, talvez o Sonho Americano no filme seja representado pelo empresário e antagonista Milton Rockwell (Kevin O'Leary, polêmico empreendedor do Shark Tank), mas se não fosse ele, certamente seria outro. Quando o conhecemos, Marty já está disposto a correr, enganar, competir e às vezes implorar por uma chance. Se eu puder adicionar algo à conclusão de Safdie, Marty Supreme não é só sobre o Sonho Americano, ele é sobre tentar. Tentar, porque algo te convenceu de que você consegue. De que vale a pena. Essa narrativa, para o diretor, é o capitalismo.

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A ideia de que não importa de onde você vem, quem você é ou o que deseja ser, se você acreditar nisso e persistir, você pode alcançar a glória e ser algo maior... isso é realmente poderoso. A maior história já contada é o capitalismo, nós sabemos disso,” ele afirma. “Mas a maior promessa de todos os tempos é o Sonho Americano. Depois da guerra, a América era ‘o cara’, entende o que quero dizer? Aquele Sonho Americano foi a nossa gasolina na chama. Acho que esse convencimento é muito visível. O início do convencimento americano está ali.”

Em suas desventuras nesse contexto dos anos 1950, pós-Guerra e no autoproclamado centro do universo que é Nova York, Marty Mauser não é nada se não convencido. Mas pensando em Safdie, determinado a mostrar para quem o humilhou o que ele era capaz de fazer, talvez o personagem não seja o único. E quem pode culpá-lo? Hollywood é uma indústria difícil, que teima em não abrir espaço para novas vozes. Se provar nesse ambiente requer, talvez, uma pitada de convencimento.

O que nos leva, claro, a Timothée Chalamet. A figura perfeita para encarnar todas as ideias – de Safdie, do filme, do Sonho Americano. 

Conheci o Timmy quando estava na estreia de Bom Comportamento com o Robert Pattinson. Ele me foi apresentado como o próximo superstar,” disse Safdie, reconhecendo a profecia naquela apresentação. “Você fica muito cético quando ouve isso. Conheci esse garoto que estava lá, mas não estava onde queria estar. Ele estava me deixando saber: ‘não é isso que eu sou. Quem eu sou é o Timmy Supreme’. Ele tinha essa energia que estava explodindo dentro dele. Ele não conseguia parar de se mexer, mas era muito sério, muito sério mesmo. Mas também era completamente brincalhão, era um piadista. Havia um diálogo interno interessante com ele que me fascinou. Eu sabia que ele era alguém em busca da grandeza. Eu apenas vi o sonhador dentro dele e achei que era muito apropriado para este personagem.”

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Tudo isso, claro, está refletido na atuação – e até na divulgação – de Chalamet. Essa qualidade inquieta, incessante, meio irritante mas sempre carismática, é fundamental para o sucesso de Marty Supreme. É o mix que nos deixa presos à epopeia de Marty Mauser. Como quem acompanha a bolinha de pingue-pongue com olhos fixos, mal podemos piscar enquanto ele salta de esquina em esquina em Nova York. Correndo e gritando como só quem tem um sonho para realizar consegue.

Fonte: Omelete // Guilherme Jacobs

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