FILMES NO CINEMA

Pigossi mergulha no terror com Lago dos Ossos, mas confessa: “Sou medroso”

Publicado em 05/02/26 06:00

Marco Pigossi admite que não sabia nada de terror antes de filmar Lago dos Ossos e O Quarto do Pânico, dois de seus projetos de maior destaque em 2026. O ator brasileiro contou ao Omelete que “sempre foi medroso” demais para assistir muitos filmes de horror, mas que se deliciou ao descobrir, por conta desses dois projetos, a fanbase enorme e dedicada que se reúne em torno do gênero.

Existe um universo enorme, com um público muito fiel, curioso, apaixonado e com um conhecimento profundo sobre cinema e narrativa. Foi uma alegria descobrir esse cenário e perceber o quanto as pessoas esperam, estudam e se divertem com essas histórias”, comenta. “O terror tem essa capacidade única de nos fazer sentir vivos, de provocar adrenalina e criar uma experiência coletiva muito intensa na sala de cinema”.

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O Quarto do Pânico brasileiro é "releitura, e não remake", diz Marco Pigossi

Em Lago dos Ossos, Pigossi é Diego, que com a namorada Sage (Maddie Hasson, de Recruta) resolve passar o fim de semana em uma cabana isolada para tentar reacender a chama de um relacionamento apagado. Quando um segundo casal - Will (Alex Roe, de Billy the Kid) e Cyn (Andra Nechita ,de A Vida Sexual das Universitárias) - aparece por lá dizendo também ter alugado a cabana para o fim de semana, o quarteto começa a formar uma teia complexa de relações perturbadoras.

Confira abaixo o papo completo do ator com o Omelete, tocando em sua experiência com a diretora Mercedes Bryce Morgan (Spoonful of Sugar), os efeitos práticos das cenas mais tensas de Lago dos Ossos e mais! O filme já está em cartaz nos cinemas brasileiros, com distribuição da PlayArte.

OMELETE: Lago dos Ossos é sua primeira entrada mais franca no território do cinema de horror. Qual é sua relação com o gênero? E por que você acha que ele se mantém tão relevante hoje em dia, especialmente apostando em histórias originais?

PIGOSSI: É realmente meu primeiro filme de terror. Para ser sincero, eu conhecia muito pouco do gênero. Sempre fui medroso com filmes de terror [risos] e por isso entrei nesse projeto quase sem referências. E fui completamente surpreendido. Existe um universo enorme, com um público muito fiel, curioso, apaixonado e com um conhecimento profundo sobre cinema e narrativa. Foi uma alegria descobrir esse cenário e perceber o quanto as pessoas esperam, estudam e se divertem com essas histórias. O terror tem essa capacidade única de nos fazer sentir vivos, de provocar adrenalina e criar uma experiência coletiva muito intensa na sala de cinema. Acho que eu nunca tinha vivido algo assim.

Eu amei a experiência tanto de fazer quanto de assistir. E por coincidência, no mesmo ano, lanço O Quarto do Pânico, que é uma releitura brasileira do clássico do David Fincher, trazendo essa atmosfera para a nossa realidade de violência urbana.

OMELETE: Eu vi por aí Lago dos Ossos sendo definido como um thriller erótico - você concorda com essa avaliação? Qual é o papel do sexo no filme, e como você vê essa discussão sobre a importância ou necessidade de abordar sexualidade no cinema?

PIGOSSI: Acho que essa definição de thriller erótico vem de uma tradução um pouco equivocada dos artigos e do press release do filme em inglês. Lá fora usaram a expressão erotic thriller, mas o filme não é erótico e tampouco trata diretamente de sexualidade.

Na história, acompanhamos um casal com a relação desgastada, com pouca comunicação e intimidade, que decide alugar uma casa por alguns dias para tentar se reconectar. Um dos personagens tenta reacender a vida sexual entre eles, e quando um segundo casal entra em cena, desperta inseguranças e provocações — nasce ali um jogo de sedução e poder.

É impossível falar de um relacionamento em crise sem tocar nesse campo íntimo, porque ele faz parte da fragilidade e da verdade daquele vínculo. Então, o sexo aparece mais como um reflexo emocional, uma forma de revelar o que está mal resolvido entre eles, e não como um tema central ou explícito.

Eu diria que Lago dos Ossos é muito mais um filme sexy do que erótico [risos]. Foi, no fim das contas, uma questão de tradução — como diria Sofia Coppola, Lost in Translation [título em inglês de Encontros e Desencontros, filme de 2003 da diretora].

Cena de Lago dos Ossos (Reprodução)

OMELETE: A diretora de Lago dos Ossos, Mercedes Bryce Morgan, tem um estilo bem único, e sempre aborda questões de gênero, sexualidade e família nos seus filmes de terror. Como foi seu trabalho com ela, e quais são os temas centrais desse filme pra você?

PIGOSSI: Trabalhar com a Mercedes foi um enorme prazer e uma experiência realmente única. Mais do que os temas que ela costuma explorar — gênero, sexualidade, família — o que mais me impressiona é a forma como ela dirige e domina a linguagem cinematográfica.

A câmera da Mercedes é quase um personagem dentro da história. Ela se move com os atores, participa emocionalmente da cena. Seus enquadramentos são dinâmicos, modernos e às vezes até abstratos, o que dá ao filme uma identidade visual muito própria e jovem. Muitas vezes ela chegava ao set com o storyboard desenhado, o que nos ajudava a entender exatamente o movimento da câmera e o ritmo que ela queria imprimir.

Como ator, o mais importante nesse processo é confiar. Entender que a câmera está ali para contar a história junto com você, e que o seu papel é simplesmente estar presente e trazer verdade para o momento. Essa troca entre linguagem e emoção é o que torna o trabalho com ela tão especial.

OMELETE: A química entre o quarteto central é essencial para Lago dos Ossos funcionar. Como você trabalhou com a Maddie Hasson pra construir a relação do Diego e da Sage, e como foi chocar essa dinâmica com a dos outros dois atores? Houve muito ensaio?

PIGOSSI: Trabalhar com a Maddie foi um enorme privilégio. Ela é uma atriz muito sensível, generosa e profundamente comprometida com o trabalho. Desde o primeiro encontro já senti que haveria uma conexão muito forte entre nós, porque ela tem uma escuta real — está sempre aberta, presente, e isso faz toda a diferença em cena.

Construímos a relação de Diego e Sage com muita troca e confiança. Conversamos bastante sobre o passado dos personagens, sobre o que não está dito no roteiro, e isso ajudou a criar uma intimidade silenciosa, uma cumplicidade que transparece mesmo nos momentos de tensão. A Maddie tem uma capacidade impressionante de misturar vulnerabilidade e força, e isso tornou a relação deles muito mais humana e complexa.

Quando o outro casal entra na história, essa química é desafiada e ganha novas camadas. A energia entre os quatro atores foi muito viva e orgânica, e a Mercedes soube conduzir isso com maestria. Tivemos poucos ensaios formais, mas muita conversa, improviso e escuta no set. Foi um processo muito colaborativo e bonito — daqueles em que todo mundo se eleva junto.

Marco Pigossi em O Quarto do Pânico (Reprodução)

OMELETE: Lago dos Ossos, especialmente no clímax, não economiza no sangue e na ação. Como foram as filmagens dessas sequências finais? Foi sua experiência mais intensa com esse tipo de efeito prático?

PIGOSSI: Ah, eu adoro cenas com sangue e ação! Viro literalmente uma criança no set quando posso brincar disso [risos]. É aquela parte do trabalho que desperta o lado mais lúdico — você está ali todo sujo de sangue falso, com efeitos práticos, correndo, gritando, e ao mesmo tempo tudo é coreografado e técnico, o que exige muita concentração e precisão. As sequências finais foram super intensas, tanto fisicamente quanto emocionalmente. Tínhamos muita preparação, marcação e repetição para garantir que tudo ficasse seguro e convincente. Mas, sinceramente, eu me diverti muito. É o tipo de cena que me faz lembrar por que escolhi ser ator — essa mistura de adrenalina, fantasia e jogo.

Sem dúvida foi uma das experiências mais intensas que já tive com efeitos práticos, mas também uma das mais divertidas da minha carreira.

OMELETE: Marco, a última vez que te entrevistei foi quando você lançou Maré Alta aqui no Brasil - um projeto bem pessoal, e com um pendor bem dramático. Como você equilibra os gêneros e tons diferentes na sua filmografia? Existe aquela coisa do “um pra mim, um pra eles”?

PIGOSSI: É verdade, Maré Alta foi um projeto muito pessoal, quase um mergulho emocional mesmo. Mas eu nunca pensei minha carreira como uma separação entre “um pra mim” e “um pra eles”. Eu gosto de pensar que todos os projetos, de alguma forma, são “pra mim” — mesmo aqueles que parecem mais comerciais ou de gênero.

O que me atrai é o desafio, a possibilidade de descobrir algo novo, seja em um drama intimista ou em um terror cheio de sangue [risos]. Gosto de transitar entre universos diferentes porque cada um me provoca de um jeito. Em Maré Alta, era sobre silêncios e dor; em Lago dos Ossos, é sobre tensão, ritmo e energia.

Pra mim, o equilíbrio vem de buscar verdade em qualquer gênero. Quando a história tem algo humano a dizer, eu me entrego. E acho que é isso que mantém minha trajetória viva e curiosa.

Fonte: Omelete // Caio Coletti

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