Julio Medem não queria fazer filme político – mas a história tinha outros planos
Publicado em 25/04/26 08:00
Julio Medem jura que não queria falar sobre nada em específico quando começou a escrever Oito Décadas de Amor, filme que exibe no Festival de Cinema Europeu Imovision 2026. Mas o grande cineasta, responsável por clássicos como Lúcia e o Sexo (2001) e Um Quarto em Roma (2010), percebeu em algum momento que sua trama romântica estava se enredando com a história da Espanha.
Festival Europeu Imovision traz filmes com Tony Leung e Charli XCX; veja lista“Descobri ali, no meu protagonista, um menino com um trauma muito grande, marcado pela crueldade da Guerra Civil. E tudo foi surgindo de maneira muito automática a cada dia”, comenta. “Eu deixava o meu subconsciente me guiar, mas no fim das contas vi que tinha selecionado vários momentos históricos, e percebi que o pano de fundo transcorria nas duas Espanhas em que os personagem viviam”.
Em Oito Décadas de Amor, Octavio (Javier Rey) e Adela (Ana Rujas) nascem no mesmo dia, em um mesmo vilarejo no interior da Espanha, e seguem trajetórias diametralmente opostas – conectadas por oito encontros diferentes, filmados por Medem em plano-sequência, através de 90 anos da história conturbada da Espanha.
Cineasta do Festival Imovision revela paralelos de seu filme com O Último AzulA seguir, confira o papo completo do Omelete com o cineasta. O Festival de Cinema Europeu Imovision acontece em diversas salas de cinema espalhadas pelo Brasil entre os dias 23 e 29 de abril - confira a programação completa neste neste link.
OMELETE: Julio, o seu filme se passa através da história da Espanha, e isso também implica em levantar temas políticos que podem ser espinhosos. Como isso surgiu na escrita, e qual ponto de vista você tentou injetar na obra?
MEDEM: Isso é algo que encontrei só no final do processo. A princípio, eu tentei conscientemente realizar um filme que não fosse político. Queria fazer um filme de dois personagens, contar os encontros e desencontros deles de uma maneira muito pura, sem pensar, deixando-me levar emocionalmente por quem são Octavio e Adela, que nascem em duas cidadezinhas na montanha ao mesmo tempo. Queria ver como o destino dessas duas pessoas se cruzava, e queria me deixar levar, não tinha ideia de como acabaria.
Comecei então a escrever sobre o nascimento do Octavio, quando a mãe dele fica mal e sai correndo para buscar um médico. Escrevi que ela corre para a cidade de baixo, entra pela janela do consultório... e de repente, lá estão a mãe e o pai de Adela. E, pelo rádio, ouve-se a proclamação da Segunda República – foi a primeira vez que surgiu algo político na história
Mais tarde, em outro capítulo, o pai de Octavio diz a ele que "na vida, o que faz falta é ter paciência e esperar, como na pesca". E aquilo ocorre exatamente no momento em que chegam os milicianos. Descobri ali um menino com um trauma muito grande, marcado pela crueldade da Guerra Civil da Espanha. Tudo foi surgindo de maneira muito automática a cada dia. Eu deixava o meu subconsciente me guiar.
No fim das contas, vi que tinha selecionado vários momentos históricos, e percebi que o pano de fundo transcorria nas duas Espanhas em que os personagem viviam. Eles no início eram crianças, vítimas silenciosas. Mas lá no capítulo 6, surgiu uma questão muito forte quando escrevi sobre as torcidas do Real Madrid e do Barcelona brigando…percebi que eu estava criando um clima de ódio entre irmãos, refletindo a polarização de hoje.
Vemos que o fascismo está voltando, que a extrema direita é o partido favorito dos jovens... então fiquei consciente de que não podia deixar o filme seguir sozinho, senão terminaria em tragédia. Foi aí que criei a utopia da cerimônia do perdão. E a partir da cerimônia do perdão é que surgiu a história de amor, que reorganiza todo o filme.
OMELETE: É muito interessante essa coisa do “oito” dentro do filme, porque ele é muito claro - até porque é uma obra composta por oito planos-sequência. Por que você escolheu fazer dessa forma, e o que deu mais trabalho na hora das gravações?
MEDEM: Eu dificultei muito para mim mesmo, essa é a verdade. [Risos] Tudo surgiu porque, quando escrevi o primeiro capítulo, eu via tudo em continuidade. E a partir disso, eu decidi que ia filmar tudo em plano-sequência. Foi difícil, mas ao mesmo tempo muito satisfatório, o próprio desafio de entender como conseguiríamos fazer. Ensaiei muito com as atrizes, e também com a câmera.
OMELETE: Você complicou as coisas, mas saiu daí uma grande obra! Você destacou também a construção de cenários virtuais para o filme... Como você enxerga essa relação da tecnologia com o cinema hoje?
MEDEM: Aqui temos uma representação que, por vezes, é levada para o abstrato. Imaginei que estava olhando a história por uma janelinha, conforme ela corria, o tempo passando de forma diferente. Quando você se propõe a fazer um plano-sequência, ele precisa estar conectado com a linha do tempo de suas cenas, mas fui descobrindo nos ensaios com a câmera uma relação mais surpreendente com isso. As elipses foram surgindo: uma criança nascendo dois minutos depois do rompimento da bolsa... sabemos que não é assim, mas no mundo do filme funciona! O cinema faz elipses constantemente, mesmo que não as explicite. E claro, para otimizar a filmagem, a tecnologia me ajuda bastante.
Fonte: Omelete // Caio Coletti e Pedro Gilio