Veja o trailer do filme O Anjo Exterminador
Um jantar que ninguém consegue abandonar
Um casal da alta sociedade recebe amigos e conhecidos para um jantar em sua mansão, servido com talheres de prata e cumprimentos ensaiados. Depois do evento, os convidados se acomodam no salão principal para uma breve sósia, e é aí que algo inexplicável acontece: ninguém consegue atravessar a porta.
Não há grades, trancas ou soldados. Mesmo assim, sair se torna impossível. O sobrenatural se instala no cotidiano sem dar explicações, e o grupo percebe que está preso ali, junto, sem previsão de libertação.
Conforme os dias se acumulam, a comida acaba, a higiene vira problema e as aparências desmoronam. O que era um retrato de civilização se converte em estudo de comportamento sob pressão, conduzido pela mão seca e provocadora de Luis Buñuel.
Um marco do cinema de 1962
O Anjo Exterminador estreou em 1º de fevereiro de 1962, fruto de uma coprodução entre México e Espanha. Chegou ao Festival de Cannes daquele ano e concorreu à Palma de Ouro, consolidando Buñuel como um dos diretores mais importantes de sua geração.
O longa dialoga diretamente com o também clássico O Discreto Charme da Burguesia, de 1972, expandindo a mesma obsessão do cineasta pela hipocrisia das elites. É citado como influência por cineastas que vão de David Lynch a Yorgos Lanthimos.
Hoje, é presença obrigatória em listas de melhores filmes surrealistas e segue sendo estudado em escolas de cinema do mundo inteiro.
Vale o ingresso?
Ponto alto: a mise-en-scène é cirúrgica. Buñuel transforma um salão em ringue de experimentos sociais, e cada tomada parece pensada para provocar incômodo no espectador. Silvia Pinal entrega uma performance de contenção impressionante, com olhares que dizem mais que qualquer diálogo.
O roteiro acerta ao recusar explicações racionais. A ausência de motivo é o motor do filme, e o absurdo funciona como espelho do real.
Ponto fraco: o ritmo é lento de propósito, e isso espanta quem espera ação ou reviravoltas. Quem não se conecta com a proposta vai achar arrastado.
Também não espere respostas: o drama é filosófico, não narrativo. É um filme para pensar depois, não para comentar durante.
Curiosidades de bastidor
- O roteiro foi escrito por Luis Buñuel em parceria com Luis Alcoriza, seu colaborador frequente desde a era mexicana.
- A cena em que os personagens dormem no chão foi improvisada a partir de figurino que não chegou a tempo do set.
- O título faz referência direta à passagem bíblica do Anjo Exterminador, mas o cineasta sempre negou intenção religiosa no roteiro.
Perguntas frequentes
O Anjo Exterminador tem cena pós-créditos?
Não. O filme termina de forma seca, sem recursos extras. A última imagem é a que fica, e não há nada depois dos créditos finais.
O Anjo Exterminador é baseado em fatos reais?
Não. A história é uma alegoria inventada por Buñuel, embora tenha sido inspirada em relatos de tertúlias burguesas que ele próprio frequentou em Madri.
Qual a diferença entre O Anjo Exterminador e O Discreto Charme da Burguesia?
Os dois abordam a elite com ironia, mas o primeiro se passa em um único cômodo e trabalha com o claustro, enquanto o segundo leva os personagens a uma sequência infinita de jantares interrompidos.
Pra quem é este filme:
- Fãs de cinema de autor europeu e latinoamericano que curtem narrativas sem solução fácil.
- Leitores de Kafka, Camus e Sartre interessados em metáforas existenciais em movimento.
- Admiradores de sátiras sociais ácidas, especialmente as que ridicularizam a burguesia e seus rituais.
Título original: El ángel exterminador
País de origem: Espanha, México
Data do lançamento: 01/02/1962
Diretor: Luis Buñuel
Principais atores: