Veja o trailer do filme Grave
Do trote ao inferno particular
Justine (Garance Marillier) chega à faculdade de veterinária com uma identidade bem definida: vegetariana, estudiosa, filha obediente. O problema é que a mesma instituição onde a irmã mais velha, Alexia (Ella Rumpf), já circula com liberdade vai submetê-la a um trote de calouros agressivo e ritualístico.
O ponto de virada é simples e brutal: Justine é forçada a comer carne animal. A partir daí, o longa-metragem de estreia de Julia Ducournau mergulha numa transformação que mistura corpo, desejo e instinto, deixando claro que nada naquela personagem será como antes.
O filme usa o terror como lente para falar de puberdade, fome e identidade, em vez de apostar em sustos baratos. Quem se interessar por drama de formação também encontra camadas para puxar.
De Cannes ao streaming
Grave estreou em maio de 2016, na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes, e viralizou por causa de desmaios reais na plateia. Logo depois, rodou festivais como Toronto, Sitges e o Fantasporto, onde ganhou o prêmio de melhor filme.
No Brasil, chegou em 2017 em circuito limitado, mas a maior parte do público só viu a obra quando a Netflix a incluiu no catálogo, o que consolidou o status cult de Ducournau antes de ela explodir com Raw. Hoje, Grave é citado em listas de melhores body horrors da década e em discussões sobre cinema de horror feito por mulheres.
Vale o ingresso?
Ponto alto: a direção de Julia Ducournau conduz a transformação de Justine com um controle de câmera raro em estreias. O uso do corpo como matéria-prima narrativa lembra o trabalho de Cronenberg, mas com uma sensibilidade mais íntima.
A trilha sonora, o desenho de som e a fotografia de Ruben Impens criam uma atmosfera que gruda na pele. O terceiro ato, em particular, é uma sequência de horror corporal difícil de esquecer.
Ponto fraco: o ritmo da primeira hora é lento de verdade. Quem busca sustos ou plot twists vai se frustrar, porque o roteiro aposta em atmosfera e em desconforto crescente, não em eventos.
As cenas deglutição explícita podem afastar espectadores sensíveis sem aviso prévio. Não é um filme para ver comendo.
Curiosidades de bastidor
- O filme causou desmaios documentados em sessões do Festival de Toronto, e paramédicos tiveram que ser acionados.
- Julia Ducournau é formada pela prestigiosa La Fémis, mesma escola francesa de cineastas como François Ozon.
- A sequência do trote foi inspirada em rituais reais de integração em universidades europeias, segundo entrevistas da diretora.
Perguntas frequentes
Grave é baseado em fatos reais?
Não. A história é fictícia, mas o trote universitário foi inspirado em relatos de rixas reais e em pesquisas da diretora sobre hierarquias estudantis.
Grave tem cenas pós-créditos?
Não. O filme termina de forma definitiva antes dos créditos finais, sem cena extra depois.
Grave é muito violento? Tem classificação indicativa?
Sim, é forte. Contém cenas explícitas de mutilação, ingestão e nudez. No Brasil, recebeu classificação de 18 anos por causa do conteúdo gráfico e sexual.
Pra quem é este filme:
- Fãs de body horror sério, como os trabalhos de David Cronenberg e a própria Julia Ducournau em Raw.
- Quem curte cinema de autor francês e dramas de formação com viés transgressor, no espírito de Entre os Muros da Escola e Tiger Girl.
- Leitores de crítica de cinema que acompanham festivais como Cannes, Sitges e Locarno e colecionam listas de cult do horror contemporâneo.