Yalitza Aparicio: "Eu era uma dessas pessoas que não via o impacto que um filme pode ter"

Publicado em 11/04/19 18:00

De professora em uma escola no interior do México à estrela internacional de cinema numa fama meteórica, Yalitza Aparicio tem certeza de que quer usar o acesso à essa nova posição para lutar a favor dos direitos das mulheres e evitar distorções na definição de feminismo.

Protagonista de "Roma", filme vencedor em três categorias do Oscar 2019 - diretor, filme estrangeiro e fotografia -, Yalitza, concorre agora à melhor atriz no Prêmio Platino. Para ela, o termo "feminista" desperta receio em certos setores da sociedade e algumas pessoas, inclusive mulheres, erroneamente vinculam a palavra à "superioridade feminina" e ao desprezo pelos homens.

"Ser feminista é buscar a igualdade de gênero, não mostrar superioridade. Todos somos iguais e merecemos os mesmos direitos", afirmou a atriz, que participa do Festival Internacional de Cinema do Panamá (IFF), em entrevista à Agência Efe.

No quarto do hotel onde está hospedada e com gestos tímidos, ela defende que aos poucos os avanços vão sendo alcançados e cada vez mais homens se somam à causa, embora não se atrevam a se declarar publicamente pró-feministas por medo de discriminação. "Já temos avanços (em matéria de igualdade). Tomara que não desistamos do que estamos fazendo", acrescentou a atriz.

Yalitza, 25, nasceu no estado de Oaxaca, um dos mais pobres do México, e no começo do ano se tornou a primeira mulher indígena a ser indicada ao Oscar na categoria de melhor atriz por sua interpretação no aclamado filme do diretor mexicano Alfonso Cuarón. "Num dia estava estudando para ser professora, terminei o curso, e no outro era atriz", admitiu a jovem.

Ela quer continuar atuando e vêm analisando diferentes propostas. "Estou aberta a qualquer tipo de papel e a continuar interpretando essas mulheres da vida cotidiana", revelou Yalitza.

Em "Roma", que lidera as indicações ao Prêmio Platino, a atriz dá vida à Cleo, uma empregada doméstica de origem mixteca que trabalha para uma família de classe média alta na Cidade do México no início dos anos 70.

Trailer legendado do filme "Roma"

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O filme, rodado em preto e branco e inspirado na infância de Cuarón, não é só uma homenagem às mulheres que entregam suas vidas para facilitar a de milhões de famílias no mundo todo, mas também um tributo ao matriarcado e a todas as mulheres "em geral", na opinião de Yalitza. "Na minha comunidade, as mulheres são o sustento das famílias e as que nos estimulam a seguir em frente", acrescentou a atriz.

A produção, que também recebeu críticas por causa de seu ritmo e duração (2h15m), provocou uma reflexão sobre as condições de trabalho às quais muitas empregadas domésticas são submetidas e contribuiu, entre outros aspectos, para que o México incluísse recentemente essas trabalhadoras na Previdência Social.

"Eu era uma dessas pessoas que não via o impacto que um filme pode ter. 'Roma' conseguiu muitas coisas, cabe principalmente aos governos, trabalhadores domésticos e empregadores lutar pela dignidade da profissão", declarou a atriz.

O salto à fama da jovem professora não foi um caminho fácil. Ela teve que suportar críticas cruéis devido à falta de experiência e chegou a ser alvo de preconceito por sua origem indígena.

"Não é preciso chegar a Hollywood para saber que esta profissão é complicada e tem discriminação. Tomara que as coisas mudem e que haja mais oportunidades para as pessoas e deixemos de lado os estereótipos que tanto nos afetam como sociedade", concluiu Yalitza.

No Prêmio Platino, que será entregue em 12 de maio, Yalitza Aparicio concorre com Ana Brun ("As Herdeiras"), Marina de Tavira ("Roma") e Penélope Cruz ("Todos Já Sabem"). A cerimônia acontecerá pelo segundo ano consecutivo no Teatro Gran Tlachco, no Parque Eco-arqueológico Xcaret, na Riviera Maya.

No Festival Internacional de Cinema do Panamá, ela foi uma das principais convidadas e também recebeu as Chaves da Cidade pela Prefeitura da Cidade do Panamá.

Fonte: UOL Cinemas // María M.Mur