"Vice" é o ácido retrato cinematográfico de Dick Cheney

Publicado em 20/12/18 13:00

Los Angeles, 20 dez 2018 (AFP) - Como tecnocrata que prioriza a discrição, "Dick Cheney não era um cara que buscava que fizessem um filme sobre ele", afirma Adam McKay, diretor e roteirista de "Vice", a produção biográfica consagrada à ascensão política do controverso ex-vice-presidente de George W. Bush.

Mas graças a uma gripe que deixou McKay de cama por vários dias, ele acabou devorando um livro sobre Cheney, "que não parou de me surpreender pela forma como mudou profundamente o curso da história dos Estados Unidos", explicou recentemente na apresentação de seu filme, que estreia oficialmente nos Estados Unidos em 25 de dezembro.

"Vice" já coleciona indicações para os principais prêmios do cinema (número um para o Globo de Ouro com seis categorias) e pode faturar o Oscar de Melhor Ator. Pois foi, sobretudo, o trabalho de Christian Bale, irreconhecível sob muitas camadas de maquiagem e com 20 quilos a mais para interpretar Cheney "com sinceridade", que entusiasmou os críticos.

"Encarna a essência de Cheney", resume a Rolling Stone, enquanto a Variety o chama de "talentoso". "Christian Bale captura o personagem de Dick Cheney - seco, sarcástico, falsamente maçante (...) - com um brilhantismo que se aproxima da perfeição", escreve o site especializado.

"É uma personalidade muito forte, incrivelmente sólida, e, de certa maneira, ele entendia - talvez mais do que ninguém - como fazer funcionar as engrenagens do governo", explicou Bale sobre o ex-vice-presidente, a eminência grisalha de George W. Bush de 2001 a 2009.

Encarnação da linha dura dos neoconservadores americanos, Cheney também foi secretário da Defesa de 1989 a 1993, durante a primeira Guerra do Golfo (1991).

Não apenas foi criticado pela sua política, como também por suas afirmações sobre a presença de armas de destruição em massa no Iraque, e sua justificativa da tortura, chamando de "técnicas melhoradas de interrogatório".

Cheney, de 77 anos, também foi suspeito de conflito de interesses: quando se candidatou a vice-presidente, em 2000, era diretor executivo da Halliburton, a segunda maior companhia petroleira do mundo, que enriqueceu graças à segunda guerra do Iraque, em 2003.

- 'Vilão de desenho animado' -"Vice" mistura os episódios entre o homem de negócios e poder na Casa Branca com o jovem originário de Wyoming, beberrão e bruto, que foi expulso da Universidade de Yale.

A sua salvação se deve a sua esposa Lynne, vivida no filme por Amy Adams, cuja atuação também provocou aplausos de muitos críticos, assim como a de Sam Rockwell, que interpreta o presidente George W. Bush, um pouco perdido nos labirintos do poder, e de Steve Carell, caracterizado como Donald Rumsfeld.

Contudo, as opiniões estão muito mais divididas sobre a produção em si. Embora muitos tenham se mostrado entusiasmados com o trabalho de McKay, alguns críticos falam de uma visão superficial e caricatural de Cheney, convertido "em um vilão de desenho animado", segundo a revista Time.

A principal crítica da Variety é que o filme nunca responde a pergunta de "Quem é Dick Cheney?". "O público deve se contentar com conceitos como cobiça e poder".

No entanto, o diretor insistiu que "desde o início teve a vontade de humanizar esses personagens, de se aprofundar neles, de entendê-los".

No meio do caminho entre farsa burlesca e tragédia, o filme pode se desestabilizar por sua quantidade de recursos: repetição de "flashbacks", voz off, aparições surrealistas durante a história, Cheney se dirigindo diretamente ao espectador.

McKay "criou algo que realmente rompe as convenções (...) É necessário porque o que vemos na tela pode ser muito triste e traumático", argumentou Bale.

Segundo Carell, um dos pontos fortes deste filme é "que é muito contemporâneo, muito atual".

"Os espectadores farão, forçosamente, a conexão entre o passado e o que está acontecendo agora", assegurou o ator, sem citar o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

HALLIBURTON

Fonte: UOL Cinemas // UOL