'Tudo em todo lugar ao mesmo tempo' é o multiverso que a Marvel sempre quis

Publicado em 23/06/22 05:00

Já faz um bom tempo que a Marvel vem tentando criar de maneira lógica um "multiverso" para chamar de seu. Foram diversos anos, com diferentes filmes e séries que tentavam ao máximo expandir a ideia de que este universo em que vivemos - e que assistimos às produções - não é o único que existe. Este conceito acredita que o universo é composto por incontáveis mundos, dimensões e linhas do tempo.

Na série "Loki" (2021), a ideia das diversas realidades foram expostas e mostraram como os variados universos funcionam e podem se influenciar. O mesmo aconteceu com "Homem-Aranha Sem Volta Para Casa" (2021) e recentemente com "Doutor Estranho No Multiverso da Loucura" (2022), quando a viagem entre universos foi consagrada como o centro da narrativa.

A discussão sobre o multiverso vem se aprimorando dentro da Marvel, com explicações, exposições e hipóteses, sempre com uma tentativa de criar algo concreto para o público. Até que "Tudo em todo lugar ao mesmo tempo" chega aos cinemas. Um filme quase que autoral, dirigido por Daniel Kwan e Daniel Scheinert, e mostra, ao longo de suas duas horas e vinte minutos, o que a produtora dos filmes de super-heróis vem tentando fazer há muito tempo.

De maneira didática e até mesmo simples, o novo longa dexplica e desenvolve o seu multiverso por meio da história de Evelyn Wang (Michelle Yeoh), uma mulher de meia idade que lida com os problemas normais da vida, como impostos, divergências familiares e trabalho. Tudo parece normal, até que uma série de eventos fantásticos mostram a ela que a sua realidade não é a mesma.

"Tudo em todo lugar ao mesmo tempo" mistura explicações com cenas de ação de maneira que entretém e intriga o espectador. O roteiro ensaia uma espécie de linearidade, mas não a segue, o que pede uma atenção o tempo todo de quem está assistindo. No entanto, é difícil de se manter imerso na história, uma vez que a todo momento são introduzidos novos detalhes e reviravoltas, e faz isso de maneira primorosa.

Ao abordar o Multiverso, a Marvel foca muito mais na questão de existirem inúmeros vilões do que em questões mais pessoais de personagens, por mais que elas sejam abordadas algumas vezes. E tudo bem, estamos falando de uma empresa de produções de super-heróis. Já "Tudo em todo lugar ao mesmo tempo" se aprofunda em discussões mais filosóficas, que todos nós mortais lidamos: "Como seria a minha vida caso eu tivesse feito outra escolha?".

Para tentar salvar todos os universos de uma grande ameaça, Evelyn Wang tem acesso a diferentes versões suas de outras realidades: uma é atriz famosa, a outra é uma mulher apaixonada, uma terceira é cantora, e por aí vai. Todas parecem muito mais felizes do que ela se encontra. Não à toa, em dado momento um personagem revela à protagonista: "Você é a mais fracassada de todas", e é este o motivo de ela se esforçar para seguir em frente e lutar para vencer.

Com uma edição de encher os olhos - e digna de um Oscar -, "Tudo em todo lugar ao mesmo tempo" é um daqueles filmes que dá vontade de assistir a diversas vezes para poder conferir os mínimos detalhes dos universos paralelos, como em um que todas pessoas têm dedos de salsichas ou no que a humanidade não existe como a conhecemos e o planeta é habitado por pedras.

Ao final, é de se esperar que o espectador vá para casa se questionando sobre o que assistiu e, assim como a personagem principal, filosofando sobre a própria vida. Mas, diferente de um filme da Marvel, não há cenas pós-créditos que tentem introduzir a um novo multiverso. Tudo o que você precisa saber já foi te apresentando.

Fonte: UOL Cinemas // Fernanda Talarico