Emmy 2021 | E se as categorias de atuação não tivessem gênero?

Publicado em 14/09/21 17:00

Você já parou para pensar como soa antiquado julgar atores e atrizes separadamente em premiações como o Emmy e o Oscar? Além de ser uma distinção não vista em nenhuma outra categoria -- não se escolhe melhor diretor e melhor diretora, por exemplo --, não são necessários mais do que alguns instantes para se dar conta de que, como nos demais departamentos de uma produção, o gênero não influencia as habilidades dramáticas de um performer, de modo que a divisão não parece ter lá muita utilidade. Mas, mais importante ainda, essa categorização tem um caráter excludente, e apenas recentemente a indústria começou a entender que escolher um melhor ator e uma melhor atriz deixa de fora da disputa pessoas não-binárias.

Asia Kate Dillon, que interpreta Tyler Mason em Billions, teve -- e continua a ter -- um papel central nessa tomada de consciência em Hollywood. Isso porque, como sua personagem, Dillon é uma pessoa que não se identifica completamente nem como homem, nem como mulher. Por isso, ao tentar uma vaga no Emmy de 2017, elu* se viu diante de um dilema e, para resolvê-lo, escreveu para a Academia de Televisão questionando a distinção por gênero. “[...] se as categorias ator e atriz, na realidade, representarem 'melhor performance por uma pessoa que se identifica como mulher' e 'melhor performance por uma pessoa que se identifica como um homem', então não há espaço para a minha identidade no sistema binário de premiação. [Mas] se as categorias ator e atriz fazem referência a sexo, pergunto respeitosamente por que isso é necessário?”, disse na carta, obtida pela Variety na época.

A Academia respondeu que não há qualquer exigência de gênero na hora da inscrição, de modo que a pessoa pode tentar uma vaga como ator ou atriz, de acordo com sua preferência, e Asia Kate Dillon fez sua escolha. Contudo, mesmo Dillon percebeu mais tarde que a postura da instituição não resolveu a questão que elu propôs, como declarou à NPR neste ano: “quer dizer que Denzel Washington poderia se inscrever como atriz e Viola Davis como ator, e isso seria ok? Então o que isso implica na justificativa para a existência dessas categorias?”.

De fato, forçar alguém a se adequar a um sistema que não o inclui é dificilmente uma solução, mas o caso gerou um debate na indústria que se mantém até hoje e, a passos lentos, Hollywood busca suas alternativas. A partir desse ano, por exemplo, o Gotham Awards aboliu a separação por gênero nas categorias de atuação, ou seja, não mais escolhe cinco homens para melhor ator e cinco mulheres para melhor atriz. Agora, o prêmio dedicado a produções independentes indica até 10 nomes, independentemente das suas identidades de gênero. Até o Emmy amaciou um pouco suas regras. Veja bem, ainda mantém firme a divisão por gênero, mas agora permite que os certificados de indicação e os troféus digam “performer”, um termo mais neutro, em vez de “ator” ou “atriz”.

Mesmo assim, no âmbito mais amplo, existe uma resistência para abolir a divisão por gênero -- o que chega a ser curioso, considerando que a compreensão de que o gênero pode ser fluído tem ficado cada vez mais popular. Apenas no Emmy deste ano temos dois indicades que se entendem dentro do guarda-chuva do não-binário: Emma Corrin, de The Crown, que usa pronomes femininos; e Carl Clemons-Hopkins, o Marcus da comédia Hacks, que aceita todos desde que usados com respeito.

Para tentar entender os motivos por trás da relutância das organizações destes eventos a medidas mais inclusivas, a gente propôs no OmeleTV um cenário hipotético: o que aconteceria se um prêmio, como o Emmy, tomasse uma medida mais direta? Como estúdios, emissoras e profissionais seriam impactados para além do resultado mais óbvio da integração mais orgânica de pessoas não-binárias? Confira as nossas conclusões no vídeo acima.

*elu é uma opção de pronome pessoal neutro para a terceira pessoa do singular (ele/ela)

Fonte: Omelete // Mariana Canhisares